Lucca revisava alguns documentos do hospital no qual trabalhava quando sua filha Rebeca entrou no cômodo onde ele se encontrava.
– Fala, filhota, no que posso lhe ajudar?
– Como você sabia que era eu, pai?
– Eu sei que pode parecer bizarro, Rebeca, mas cada um de vocês tem uma maneira única de andar, de pisar e eu reconheço pelo som qual dos meus filhos está chegando.
– Eu tô em dúvida se acho isso bizarro ou fofo.
– Hahaha. Deixando isso de lado, no que posso lhe ajudar? Porque eu sei que quando você faz essa cara é porque quer pedir algo.
– Que cara?
– Essa cara que você tá fazendo. Te conheço à 19 anos, filha, não tente me enrolar.
– Ta, ok. Eu tava conversando com a Gala e com o João outro dia, sobre as suas técnicas de luta e as magias e os os truques que o senhor conhece pai e aí surgiu uma pergunta que eu queria lhe fazer. Aliás, uma não, duas. Posso fazer?
– Sim, claro, qual é a segunda? – retrucou Lucca com um sorriso.
– Engraçadinho. Essa piada teve graça uns 9 anos atrás, pai.
– Para mim continua tendo graça. Agora, vamos lá, desembucha.
– Está bem. A primeira pergunta: como alguém como você, bonzinho, cujo elemento da magia com qual você tem mais afinidade é a luz, aprendeu uma magia das trevas como a magia de medo que você usa?
– Tá, ok. E qual é a segunda? Embora eu imagine qual seja…
– E depois eu que sou apressada. A segunda é: você pode ensinar ela para mim?
Lucca começou a rir, o que deixou a filha sem reação.
– Não entendi o riso.
– Desculpa, filhota, mas é que eu tinha certeza de qual seria a sua pergunta e eu acertei no alvo.
– E então? Você pode me ensinar?
– Posso responder a sua primeira pergunta antes?
– Claro.
– Bem, filhota, por mais que possa parecer contraditório, considerando o meu histórico como herói lá em Noritvy e como praticante de artes marciais antes mesmo de ir para lá, eu me considero um pacifista, alguém que tenta sempre arranjar uma solução para os problemas que não envolva machucar uma pessoa.
– Para mim não é contraditório, o senhor sempre nos ensinou que a força é sempre a última saída para um impasse e sempre a pior. E, além disso, não faz sentido um médico gostar de machucar as pessoas.
– Pelo jeito você me conhece bem, filhota.
– Agora é a minha vez de falar que te conheço há 19 anos, pai. Mas por favor, continue.
– Sim, claro. Logo que eu cheguei lá em Noritvy eu quis buscar uma maneira de resolver discussões e impasses da maneira mais pacífica possível. E aí o velho mago se ofereceu para me ensinar uma magia chamada “Aura do Medo”, que vem a ser a magia que eu uso. Segundo ele, o uso dessa magia, combinado com as palavras certas me livrariam de muita dor de cabeça. E, de fato, me livraram de muitas confusões. Bastava eu chegar “botando banca” como os antigos falavam e liberando a aura que a maioria dos ditos valentes se encolhiam todos.
– Faz sentindo, pai, embora eu às vezes ache que só de “botar banca” o senhor já resolveria sem precisar de magia alguma.
– Ok, filha, eu acho que você está subestimando minha capacidade natural de me impor mas não vamos discutir sobre isso. Agora, me diga, respondi a sua primeira pergunta como você queria?
– Sim! E agora vamos ao ponto mais importante: você vai me ensinar ou não?
– Você tem que entender, filha, que não é uma magia fácil de se aprender. Afinal ela lida com os medos de outra pessoa e pode afetar até mesmo quem a lança. Tem que ter uma grande capacidade de autocontrole pra dosar a quantidade de medo provocado afinal você só quer que a pessoa se acovarde, não que desmaie ou “tenha um treco” de tanto sentir medo…
– Sim ou não, pai…
– Ok, se você faz tanta questão, ok, eu posso tentar te ensinar mas saiba que alguns dos seus primos e dos seus irmãos fracassaram nisso.
– Só que eu não sou eles! Eu vou ter sucesso.
– Claro, claro. Posso voltar pros meus documentos agora?
– Vou pensar no caso – brincou Rebeca.
A jovem deu um beijo na bochecha do pai e se retirou do cômodo, deixando ele mais uma vez sozinho com a sua papelada.
