Espadas Sônicas

Uma tarde qualquer no Rio de Janeiro, João estudava tranquilamente na sala de casa quando sua irmã Galawel, também conhecida como Gabriela quando estava na Terra, se aproximou e puxou papo.

— João, não é porque papai e mamãe estão de férias naquele spa lá em Petrópolis que você vai ficar se matando de trabalhar lá na Guilda dos Aventureiros. Você tem que ficar ligado na faculdade de Medicina também.

— Calma, Gala, eu tenho tudo sob controle.

— Sei…

— Tô falando sério. Eu tenho um plano.

— Ok. Mas por que todo esse esforço? Qual é esse seu “maravilhoso” plano?

— Você sabe que mês que vem eu faço 21 anos, né?

— Sim, vai virar “homenzinho” finalmente.

— Palhaça. Posso continuar?

— Deve.

— Então, eu quero pedir para o tio Sieg um par de espadas iradas, como as do papai. Por isso que eu tô trabalhando para juntar grana.

— Como se o tio Sieg fosse te cobrar por isso.

— Eu sei que não vai, mas eu quero algo realmente “top”, mana, e eu sei que o solv, o minério-base das espadas do papai e da tua Flaitin, é caro.

— Fala com o vovô. Ele arranjou o material para a minha espada, arranja para a sua também.

— Eu sei que ele arranjaria para mim, mas não é justo. Não é assim que deve ser.

— Justo?

— Ele deu o material para você porque você fez por merecer, Gala. Você foi a mais nova capitã da história dos reinos de Arlon e Erdan. Você merecia uma espada à altura desse feito. E eu? O que eu fiz por merecer? Nada.

— Eu acho bobagem, mas te conheço bem. Sei que você é tão turrão quanto eu, ou mais, e sei que não vai tirar essa ideia da cabeça. Então eu vou apenas ficar de olho para você não se machucar.

— Eu diria que eu sou mais turrão. Você puxou o papai. Eu puxei o papai e a mamãe.

A elfa nada disse, só bagunçou os cabelos do irmão caçula enquanto ria.

Ignorando os conselhos da irmã, João continuou pegando missões atrás de missões na Guilda, tentando juntar a maior quantidade de dinheiro possível.

Muitas vezes fazia missões sozinho; outras vezes, na companhia do seu primo Karlon, do seu irmão Miguel e até mesmo da sua irmã Galawel, que se oferecia para ajudá-lo quando, na verdade, buscava uma desculpa para ficar de olho no irmão caçula.

Por um breve momento, parecia que, ainda assim, o rapaz não conseguiria alcançar a sua meta, até que uma missão “caiu dos céus” no seu colo, como se alguém tivesse manipulado o destino para tudo dar certo.

João, ao lado do seu primo Karlon e da sua irmã Gala, assumiu a missão de desinfestar uma antiga mina anã que havia sido transformada num ninho de formigas gigantes, e o contrato especulava que eles poderiam ficar com os objetos de valor encontrados lá. Como era uma antiga mina onde se extraía, dentre outros metais, o solv, o rapaz tinha uma pequena esperança de achar algum lingote perdido por lá.

Após a batalha final contra a rainha das criaturas, o rapaz revirava alguns baús velhos que haviam sido reunidos pelas formigas na câmara final, mas, por mais que procurasse, nada achava e começava a perder as esperanças, quando foi chamado por sua irmã e por seu primo, que estavam revirando uma pilha de aparente lixo do outro lado da câmara.

— Primo, feliz aniversário adiantado — falou Karlon.

O elfo, que estava com as mãos escondidas atrás das costas, revelou a João o que escondia: duas pepitas cinza-escuras, com um leve brilho metálico, uma ligeiramente maior que uma bola de tênis e outra ligeiramente maior do que uma bola de golfe.

— Isso é o que eu penso que é? — disse, surpreso, João.

— Solv? Sim. — retrucou Karlon.

— Vocês têm certeza? — insistiu João, não querendo se iludir.

— Sim. — confirmou Gala. — Eu tentei arranhar de leve com a ponta de uma das minhas espadas e não consegui. Se fosse qualquer metal que não fosse solv, eu teria conseguido arranhar facilmente.

— E será que é o suficiente?

— Aí eu já não sei, primo, já que você quer um par de espadas grandes como as do teu pai. Mas, mesmo que não seja o suficiente, veja pelo lado bom: você já está mais perto do seu objetivo do que estava antes de entrar nesta mina.

— Isso é verdade. Aliás, me ocorreu algo: será que os anões que nos contrataram vão me deixar ficar com essas pepitas? Teoricamente, pelo contrato, eu tenho direito a elas, mas, sei lá, vai que tem alguma letra miúda no contrato?

— Bom, como diria o nosso pai, irmãozinho, o que os olhos não veem, o coração não sente…

Após dizer isso, Gala pegou as pepitas que estavam com o seu primo Karlon e, com um gesto de mágica, as teleportou para um lugar seguro.

Os jovens terminaram de investigar o resto da câmara e retornaram para a filial mais próxima da Guilda para relatar o cumprimento da missão e resgatar a recompensa prometida.

Para a sorte de João, as pepitas de solv eram mais do que suficientes para fazer o par de espadas largas que ele tanto desejava.

Seu tio Sieg as forjou tendo como modelo as famosas Espadas Gêmeas, que pertenciam ao pai de João, Lucca, e fez com que as novas espadas, como estas, também emitissem um poderoso ataque, bastando alinhá-las, apontá-las para o alvo e canalizar energia mágica nelas.

A única diferença é que, se as Espadas Gêmeas emitiam uma poderosa rajada de energia, as novas espadas emitiam um poderoso ataque sônico.

Quando perguntado por que um ataque sônico, Sieg riu e disse que havia se inspirado no tal barulhento “heavy metal” que o sobrinho gostava de escutar.

João batizou suas novas “companheiras de aventura” de Espadas Sônicas e, embora tenha sido zoado pelos irmãos pela falta de criatividade, este foi o nome que ficou.

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