Parte 01
Ocaran, uma simpática cidade na fronteira entre Arlon e Erdan, construída toda em um granito de tom levemente esverdeado, que lhe conferiu o apelido de “A Cidade de Jade”. Todo ano, Ocaran sedia uma importante feira agrária, onde produtores do delta e mesmo de terras mais distantes vêm negociar suas colheitas, compras de insumos, equipamentos e mesmo contratação de funcionários. Para divertir o povo e os comerciantes, a cidade, na mesma época, sedia alguns torneios esportivos, dentre eles um torneio de duelos, o quinto mais importante do continente, estando atrás apenas dos torneios de Arlon (o mais importante de todos), Erdan, Opala e Costa do Sol. Dentro da tenda reservada a um dos finalistas, uma tenda azul e branca, com pequenos detalhes verdes, uma pequena discussão ocorria entre um casal de elfos.
— Não sei não, eu tô nervoso. Não sei se dou conta do recado, se vou vencer, se não vou pagar mico… — falou o elfo.
— Arthur Bianchi, quem escutasse você falar agora acharia que é um covarde que está falando e que está indo participar do seu primeiro duelo, e não o cavaleiro que chegou na final sem cair do cavalo em nenhuma luta sequer. Cadê aquele homem corajoso que, há dois anos atrás, se jogou na frente da baforada de um dragão para me salvar?
— Amor, é diferente. Eu enfrentaria mil dragões para te salvar, Gala, mas agora eu tenho medo de, sei lá, manchar o nome da família, entende?
— Manchar como, Arthur?
— Gala, sei lá, eu me sinto, mal comparando, como um tenista novato que vai disputar a final de um Grand Slam logo no seu primeiro ano de carreira, sabe?
— Grand Slam? — riu a elfa.
— É, e, para mim, é a comparação perfeita, sabe? Se deixarmos de fora o torneio de Arlon, que só ocorre de quatro em quatro anos e que tem fins muito mais políticos e militares, os torneios anuais mais importantes são Erdan, Opala, Costa do Sol, este aqui, Ocaran, Oestpor e o da Cidade Muralha. E, ao fim de todos estes, os campeões se reúnem num super torneio para decidir quem será o rei dos duelos do corrente ano. Muito parecido com o tênis lá na Terra, não?
— Visto por esse ponto, faz sentido. De qualquer maneira, amor, o torneio de Ocaran é o último da “temporada regular”. Se pretende lutar na final, tem que ganhar hoje. Aliás, não sei por que você demorou tanto para se inscrever…
— Tava esperando ver se o Karlon ia lutar ou não…
— Deixa eu adivinhar: não tava querendo lutar contra ele por ele ter te treinado, certo?
— Não, tava querendo me poupar de uma derrota humilhante mesmo. Como no torneio eu não posso usar meus poderes dracônicos, a chance de vencer ele é zero. Lembre-se de que ano passado ele fez a temporada perfeita, ganhando todos os torneios e fazendo com que não houvesse torneio final.
— Eu lembro… Os organizadores ficaram um pouco descontentes, pois as cidades disputam a tapa a chance de sediar o torneio final. Mas, se tivesse me perguntado antes, eu teria te dito que os organizadores “convidaram” o Karlon a não se inscrever esse ano. Eles querem sangue novo, atrai mais gente, e o Karlon, como bicampeão e tendo feito a campanha perfeita ano passado, tava começando a sobrar e a assustar os outros lutadores.
— E agora eu sou o “novo Bianchi” a disputar um campeonato que já foi ganho algumas vezes pelo tio Sieg e duas pelo Karlon. Aliás, eu nunca entendi por que o tio Lucca não lutou no circuito de duelos.
— Meu pai, quando chegou aqui, logo de cara ganhou o torneio de Arlon, que, como você mesmo disse, embora tenha seu lado esportivo, também tem seu lado político, e acabou nunca se interessando por torneios meramente esportivos. Além disso, duvido que deixassem ele se inscrever, uma vez que muitos o consideram o maior cavaleiro vivo do continente.
— Posso ser sincero? Realmente não ia ter muita graça se o seu pai disputasse…
— Não mesmo. Tá mais calmo, já?
— Ainda não, amor… Tô mais tranquilo, talvez, um pouco, mas, na verdade, eu continuo nervoso. Às vezes tudo isso aqui parece grande demais para mim.
Galawel sorriu, pegou o escudo que o namorado usaria no torneio, um escudo dividido em duas metades, com a metade direita branca, com um desenho de um dragão verde, e a outra metade azul, com uma rosa vermelha no centro. Segurando o escudo com a mão direita, ela puxou o namorado para perto com a mão esquerda e o beijou.
— E agora, está mais calmo? Eu quero que você se lembre de uma coisa: aconteça o que acontecer, eu sempre estarei ao seu lado, viu?
— Tá bom.
— Agora vá, Arthur “Drako Bianchi”, e ganhe esse torneio, ok?
— Ok. Aliás, posso perguntar uma última coisa?
— Pode.
— Ficou bom esse troço de “Drako Bianchi” que eu bolei? Eu até pensei em usar aqui meu nome real, Arthur Bianchi da Silva, mas aí eu me lembrei do meu pai, que, por mais que ele seja “da Silva”, sempre falou que, quando eu virasse arquiteto, lá na Terra, que assinasse como Arthur Bianchi, que é mais diferente. Só que, ao mesmo tempo, eu quis botar algo para, sei lá, me diferenciar, deixar claro que eu sou de um “ramo colateral” da família e, como eu aqui sou um meio-dragão, pensei nisso. Mas às vezes eu me pergunto: ficou bom?
— Eu gostei, amor, achei bem legal. E o símbolo que você está usando nos torneios também ficou bom.
— Seu pai que bolou.
— Eu sei, agora vá lá e ganhe o torneio. E não se preocupe, hoje à noite lhe farei aquela massagem que você adora para aliviar as contusões, mas agora vá, que o Karlon já deve estar te esperando lá fora.
— Tá bom, tá bom, fui.
A elfa ficou sorrindo, vendo o namorado sair todo atrapalhado da tenda. Algum tempo depois, ela mesma saiu e foi para o lugar a ela reservado na pequena arena. Como neta, adotiva, mas ainda assim neta, do rei de Erdan, Galawel tinha direito a um dos melhores lugares na arena. E, de fato, quem a visse naquele dia não encontraria a capitã da guarda real de Arlon, mas sim uma verdadeira princesa, com o seu longo cabelo castanho-dourado preso numa trança e usando um belo vestido verde-musgo, trazendo, preso junto ao peito, no lado esquerdo, dois pequenos broches: um com uma rosa vermelha, símbolo da família do seu pai, e um dourado em formato de castelo, símbolo da família da sua mãe adotiva. Embora não tivesse revelado, Galawel também estava nervosa, não porque não confiasse nas habilidades do namorado, mas porque sabia o quanto aquela vitória era importante para ele.
Os finalistas se alinharam no centro da arena. O adversário de Arthur era um jovem local, filho de um cavaleiro que morava na região e que, no início, fora contra a participação de Arthur no torneio, uma vez que este não era cavaleiro nem filho de um, mas, ao ser informado de que o garoto era sobrinho-neto de Beppi Bianchi, antigo general que lutara na guerra contra Sudher, ele imediatamente parou de protestar.
O rapaz era um humano cujo padrão físico fugia ao comum das pessoas da região, tendo algo em torno de dois metros e sendo largo como uma porta. Sua família clamava ter sangue de guerreiros, humanos e elfos, vindos do norte, e, por isso, ele seria alto desse jeito. Montava um cavalo negro, usava uma chamativa armadura verde-limão e, no seu escudo, igualmente verde-limão, trazia a estampa de um coelho negro, símbolo de sua família, e um pequeno cavalo negro no topo, que demonstrava ele ser vassalo da casa de Ralit, cujo símbolo era um cavalo negro num fundo vermelho.
Após a cerimônia protocolar, Karlon, que estava no torneio como treinador de Arthur, subiu para a arquibancada, sentando-se ao lado de Galawel.
— Nervosa, prima? — perguntou ele.
— Eu? Que nada. Mas o Arthur tá uma pilha de nervos.
— Eu sei, falei para ele relaxar e dar o seu melhor, que ele vai ganhar. Não me agrada o árbitro-chefe da final ser um Ralit, devido à ligação deles com a família do outro finalista, mas teu pai falou que ele é confiável, então deixa estar.
— E o meu pai está certo, apesar de ser um Ralit, Solanum sempre foi um amigo da família, deixando a velha birra “Bianchis vs Ralits” de fora e é famoso por seu senso de justiça.
— Não duvidei do teu pai, prima, só fiz um comentário, apenas isso. E vamos ficar atentos, que a luta já vai começar.
De fato, Arthur, usando uma armadura prateada, polida, sem nenhum outro detalhe, seguindo o tradicional estilo discreto dos Bianchis, e seu adversário já haviam se posicionado nas extremidades opostas da pista, aguardando o sinal para o começo da luta. Quando este veio, os dois partiram em grande velocidade em direção ao adversário. A lança do adversário de Arthur só resvalou de leve no escudo dele, mas a lança do elfo acertou o seu adversário em cheio, derrubando-o do cavalo e levando-o a nocaute com a força da queda.
Karlon e Galawel desceram pelas escadarias rumo ao pátio da arena para cumprimentar o primo pela vitória. A elfa, sem se importar com o que acontecia ao seu redor, agarrou o namorado pelo pescoço e o beijou.
— Parabéns, amor, eu disse que você conseguiria — comentou ela, com um sorriso radiante.
— Obrigado. E agora? — perguntou ele.
— E agora? Costa do Sol — respondeu Karlon com um sorriso, citando o nome da cidade que receberia o torneio final.
Parte 02
Costa do Sol era chamada por alguns de “a joia do leste” por ser a mais rica e próspera cidade de toda a grande planície oriental. À primeira vista, destoava das outras cidades, parecendo mais uma fortaleza do que uma cidade quando vista à distância, devido aos seus muros altos e reforçados, sobre os quais repousavam armas atípicas em Noritvy: canhões. Embora a pólvora fosse conhecida em todo o continente, armas de fogo eram bem pouco comuns, pois, afinal, o que podia fazer uma espingarda contra um mago que fosse capaz de derreter não só a bala como o atirador? Os canhões ali permaneciam desde a queda do antigo Khan, cujo regime dominara a região por um século. Ao derrotarem os inimigos, Costa do Sol confiscara seus canhões e os instalara no topo de suas muralhas, jurando que todo e qualquer navio invasor que viesse do leste, como o primeiro Khan havia vindo, seria abatido a tiros pelos canhões.
Arthur foi quem mais se impressionara com a cidade, não por ser sua primeira vez lá, mas porque várias casas de Costa do Sol pareciam ter saído de um filme de época que retratava a Inglaterra vitoriana, e isso aguçara o seu lado arquiteto.
— Essas casas, em estilo inglês, como é possível? E muitos aqui estão falando algo que me lembra o idioma inglês… — comentou Arthur.
— Boa pergunta, primo. Você pode nos explicar isso, mana? — concordou João, que se unira a eles naquela viagem para atuar como escudeiro de Arthur.
— Claro que posso — respondeu Gala, com um sorriso. — Vocês sabem que este mundo e a Terra estão bem próximos um do outro, certo?
— Sim — retrucou Arthur.
— Então, bem, um dia, do nada, junto do litoral oriental de Noritvy, há uns, sei lá, quase dois mil anos, uma frota de navios exploradores ingleses, a serviço da Rainha Vitória, apareceu aqui, tendo viajado no tempo e no espaço. Guiados por um corajoso capitão, chamado Robin Cornelius Cook, eles desembarcaram aqui e batizaram o local de Costa do Sol, pois era o primeiro dia de sol depois de semanas de chuvas. O capitão Cook deixou alguns homens aqui e foi explorar o interior. No meio do mato, por assim dizer, aos pés da Cordilheira Central, ele fundou a hoje perdida cidade de Vitória, enquanto os seus homens, que haviam ficado para trás, fundaram a cidade de Costa do Sol. Por muitos anos, Robin governou as duas cidades e, através delas, a recém-criada Confederação das Cidades da Planície Oriental. Conta-se que, quando a vida dele parecia chegar ao fim, estando ele velho, doente e viúvo, e já tendo passado o governo para um filho que tivera aqui, o grande mago da época, Greyhund, que foi o único mago a dominar, até hoje, a viagem no tempo e no espaço, rejuvenesceu o capitão e o mandou, junto com uma pequena arca de tesouro, para a sua amada e distante Inglaterra.
— E o que houve com Vitória, mana? Por que ela está “perdida”? — perguntou João.
— Bem, primo, é a minha vez de bancar o professor de história — retrucou Karlon. — Enquanto ocorria a guerra que levou Greyhund a convocar nosso avô Giuseppe para cá, a Confederação do Leste foi atacada por um selvagem exército vindo do mar oriental, conhecido como o “Exército do Grande Khan”. Este exército, se aproveitando de que, devido à guerra do sul, Arlon e Erdan não podiam ajudar a confederação, conquistou esta em dois anos. Minto, conquistou quase toda ela, pois Vitória não caiu. Acontece que havia um velho e sábio xamã que servia na corte de Vitória e que previu que a cidade deveria ser esvaziada e escondida, pois, se não o fizessem, o Grande Khan fatalmente a acharia e, caso Vitória caísse, o domínio dele sobre a região não teria fim. Assim, como ele nunca havia errado uma previsão sequer, o povo da cidade a abandonou, e hoje ela se encontra perdida, sem que ninguém a consiga achar.
— Como assim ninguém a consegue achar? Ela não era a líder da Confederação? Então a localização dela devia ser pública e notória, não? — comentou Arthur, intrigado.
— Acontece que Vitória ficava no pé das montanhas, cercada pela grande floresta das ninfas, amor, e, desde a sua fundação, Vitória havia se tornado aliada das ninfas, e estas, sempre que o exército do Khan tentava chegar em Vitória, faziam as estradas mudarem de rota, se desviarem ou mesmo sumirem, tornando assim impossível o exército chegar lá — respondeu Gala. — Quando as cidades daqui se revoltaram, depois de quase um século de domínio do Khan, Arlon e Erdan ajudaram, e o exército do Khan foi massacrado, e uma nova Confederação surgiu, tendo Costa do Sol como líder.
— Aliás, primos, sejam cuidadosos e tomem cuidado com o que falam — falou Karlon. — O povo de Costa é corajoso e orgulhoso e não gosta muito de forasteiros, embora Arlon e Erdan tenham sido fundamentais para a queda do Khan.
— Ok — disse Arthur.
— Sim, “senhor” — concordou João.
Os quatro foram até a arena, onde estavam ocorrendo as inscrições e, após fazê-las, foram para a estalagem onde haviam reservado quartos, a fim de se preparar para o baile de abertura do evento, que ocorreria naquela mesma noite e que estava sendo oferecido pela Condessa da Costa do Sol, governante da cidade, e por seu esposo, Lord Rags.
Quem os visse naquela noite dificilmente os reconheceria como os “jovens Bianchis”, acostumados, geralmente, a usar roupas casuais. Galawel usava um vestido longo vermelho-sangue, com pequenas rosas bordadas na base, e trazia o cabelo preso, mais uma vez, numa longa trança. Já os rapazes, os três, até Karlon, estavam usando elegantes fraques. Os quatro mal tinham chegado e se sentado ao redor da mesa reservada a eles quando dois jovens foram cumprimentá-los: um elfo de cabelos negros e trajando um fraque azul-marinho e um rapaz com olhos azuis, cabelo cor de areia, trajando um fraque marrom-escuro.
— Potassyr, há quanto tempo, hein? — falou Karlon enquanto cumprimentava o elfo.
— Desde o torneio do ano passado — retrucou o elfo. — Este ano te proibiram de participar, Karlon?
— É, vê se pode…
— É uma pena, gostaria de tentar lhe derrotar — sorriu o elfo. — Agora, por que tu não me apresentas o teu pupilo? Porque tua prima e o irmão dela eu tive a honra de conhecer dois anos atrás, lá no torneio da Cidade Púrpura.
— Ah, sim, claro. Arthur, este é Potassyr, sobrinho da Duquesa de Aquamarine e vencedor do torneio de Opala deste ano. Potassyr, este é Arthur, sobrinho-neto do meu avô, Beppe, e campeão de Ocaran.
— É um prazer — falou Arthur, estendendo a mão para o elfo.
— O prazer é meu — retrucou Potassyr, com um amistoso aperto de mão.
Antes que Potassyr falasse mais alguma coisa, o rapaz de cabelo cor de areia soltou um pigarro.
— Foi mal, esqueci de ti, né? — falou, sem graça, Potassyr. — Pessoal, este aqui é Sergov Iriov, campeão do torneio de Oestpor deste ano e primeiro participante da final vindo de Oestpor.
— Primeiro? — falou, curioso, Arthur. — Eu achei que Oestpor já fizesse parte do circuito de duelos há muitos anos.
— E, de fato, nós fazemos, mas, devido às nossas regras, onde não só nobres, mas filhos de oficiais de alta patente podem participar, Oestpor sempre foi um torneio visto como menor, e muitos competidores fortes acabavam negligenciando-o, e, como tradicionalmente éramos o último torneio da temporada, acabava que nobres fortes que não conseguiam se classificar em outros torneios acabavam indo para lá para tentar se classificar a qualquer custo, o que deixava pouco espaço para locais como eu — comentou Sergov. — Agora, este ano, tivemos a nossa posição no calendário invertida com Ocaran, o que acabou sendo bom para mim. Os favoritos não foram, e os nobres que se inscreveram de última hora acabaram por optar por disputar somente o de Ocaran, talvez com preguiça de atravessar o deserto. Enfim, melhor para mim, certo? Mas eu chego aqui disposto a honrar a minha cidade e mostrar que Oestpor não deve ser subestimada.
— Boa sorte — sorriu Arthur. — Eu só tô aqui porque o Karlon me convenceu. Mas, uma vez aqui, espero dar o meu melhor.
— Todos nós esperamos — comentou Potassyr.
— Aliás, seria bom eu cumprimentar os outros cavaleiros, não? — perguntou Arthur.
— Eu, se fosse você, não perderia meu tempo — comentou Sergov.
— Por que não?
— Arthur, aos olhos dos esnobes daqui, você e Sergov são “nobres menores”; aliás, para alguns, nem nobres vocês são — explicou Potassyr. — Se fores falar com eles, está arriscado a olharem torto para ti ou mesmo nem falarem contigo.
— Ele está certo, primo — disse Karlon. — Se, aos olhos deles, nem mesmo eu, que, bem ou mal, sou filho de um duque, sou “grande coisa”, imagine você…
— Entendo. Acho isso ridículo, pois aqui deveríamos ser todos iguais, mas acho que entendo — falou Arthur. — Ao menos o nome deles eu poderia conhecer?
— Claro, primo — respondeu Karlon. — O elfo de cabelos negros e eterno ar de mau humor é o Krot Arivald, nascido em Erdan, sobrinho da Condessa de Kreitburg e vencedor do Torneio de Erdan.
— Aliás, foi por minha culpa que ele está aqui — se intrometeu Potassyr. — Se eu não tivesse me distraído na final, teria ganho dele e nos poupado de sua presença aqui.
— Agora ele está aqui, Potassyr, azar — deu de ombros Karlon. — Retomando, o meio-elfo ruivo que parece um pavão se mostrando para as garotas ali no canto é Will Helium, sobrinho da governante daqui e campeão do torneio da Costa. E, por último, o humano mal-encarado, com cara de que fugiu da cadeia, é Kaist Vilung, nascido em Erdan, filho do Visconde de Vilburg e campeão do Torneio da Cidade Muralha.
— Bem, então temos três cavaleiros de Erdan, um da Costa, um de Oestpor e eu, que sou de Arlon, sendo que são dois elfos, ou três, se contarem comigo, um meio-elfo e dois humanos — comentou Arthur.
— Se contarem contigo, por quê? — perguntou, curioso, Sergov.
Antes que Arthur pudesse responder, Galawel o arrastou para o centro da pista de dança.
— Amor, o que a gente falou? Não revele a ninguém que é um meio-dragão. Por mais que isso não seja ilegal, podem haver protestos — comentou a elfa, enquanto dançavam.
— Opa, foi mal, Gala. É que a nossa família encara isso tão naturalmente que eu já nem me preocupo com preconceitos.
— Nossa família não é parâmetro, Arthur. Lembre-se sempre disso.
— Sim, “senhora”.
Os dois continuaram a dançar coladinhos até que alguém cutucou Arthur. Eles pararam de dançar e, quando Arthur olhou para trás, viu aquele que lhe havia sido apresentado como Will Helium parado atrás dele.
— Permitirias que eu dance com tal formosa dama? — perguntou ele.
— Olha, não é para mim que você deve perguntar, mas para ela — retrucou Arthur.
— E então, senhorita, gostarias de ter a honra de dançar com Will Helium, campeão da Costa?
— Não, obrigada — respondeu Galawel.
A elfa fez menção de voltar a dançar com Arthur, mas foi impedida por Will.
— Tens noção de quem estás rejeitando, senhorita? — falou, num tom já ríspido, o meio-elfo.
— E vós tens noção de quem é ela, sobrinho? — falou uma elfa loira, elegante, que vinha acompanhada de uma criança que aparentava ter algo em torno de oito anos.
Os três se viraram para a elfa. Ela era alta, vestia um vestido longo, prateado, e vinha acompanhada de um menino forte de cabelos ruivos. Arthur viria a saber depois que aquela era Margareth Helium, Condessa da Costa do Sol, e que estava acompanhada de seu filho mais velho, Iron.
— Claro, tia…
— Claro nada, Will. Se soubesses, não estarias sendo tão grosseiro e inconveniente — retrucou a condessa e, após ter dito isso, se voltou para Galawel. — Alteza, peço-lhe desculpas pela atitude de meu sobrinho.
— Alteza?
— Sim, Will, esta é a princesa Galawel Fornorimar Bianchi, filha dos príncipes de Erdan, Ardriel e Lukhz, condessa de Entrerrios e capitã da Guarda Real de Arlon. E este, dançando com ela, é Arthur Drako-Bianchi, sobrinho-neto do grande Beppe Bianchi, filho de uma prima do pai dela. E, mesmo que fossem humildes camponeses, isso não lhe daria o direito de fazer tal abordagem grosseira. Essa não foi a educação que recebestes.
— Desculpe, alteza — falou, sem graça, Will. — Minha tia está certa, e minha abordagem foi inapropriada para um cavaleiro.
— Desculpas aceitas — sorriu Galawel.
Escoltado pela tia e vermelho de vergonha, Will se retirou.
Ao fim do baile, os convidados se retiraram para um salão anexo, onde haveria o sorteio das chaves do torneio. Arthur e Krot foram sorteados para ficar de “stand-by”, esperando os vencedores das lutas preliminares. Arthur enfrentaria o vencedor do duelo entre Kaist e Will, enquanto Krot enfrentaria o vencedor do duelo entre Potassyr e Sergov.
Quando estavam se retirando do salão, após o fim de todas as cerimônias de abertura do torneio, Arthur e Galawel foram novamente abordados por Will.
— Alteza, sei que lhe faltei ao respeito mais cedo, mas poderia fazer um pedido à senhorita?
— Faça, Sir Will, e, se eu puder, lhe atenderei.
— Se eu ganhar o torneio, aceitarias dançar ao menos uma música comigo no baile de encerramento do torneio?
— Se o meu namorado não se opuser…
— Eu não me oponho, amor. Se Sir Will vencer, bem, digamos que ele merecerá tal dança.
— Então está combinado, Sir Will. Vença, e eu dançarei uma música contigo.
— Muito obrigado, alteza, muito obrigado, Sir Arthur.
Will se retirou com um sorriso no rosto.
— Pelo jeito arranjaste um fã — provocou Arthur.
— Posso ter um fã, mas só tenho um namorado. E eu adoraria vê-lo vencer esse torneio, viu?
— Seu desejo é uma ordem, amor.
— Ótimo, mostra que tens juízo — sorriu a elfa. — Agora vamos descansar, pois o torneio já começa amanhã e, por mais que você não lute amanhã, seria bom assistir a todas as lutas.
— Sim, “senhora” — retrucou, com um sorriso, Arthur, antes de beijar a namorada.
Parte 03
No dia seguinte, uma imensa multidão se reuniu para assistir às primeiras lutas. Arthur, João, Karlon e Galawel se encontravam lá, na área reservada aos competidores e suas comitivas.
A primeira luta se daria entre Sergov e Potassyr. Depois de cumprido todo o protocolo, os dois cavaleiros se dirigiram para as extremidades da pista e, a um comando do juiz, partiram com as lanças em riste. Os dois adversários se acertaram ao mesmo tempo, e ambos tombaram do cavalo. O público se preparava para um duelo de espadas ou maças, mas Potassyr levantou a mão esquerda, sinalizando ter machucado o braço direito, e o duelo foi encerrado, tendo Sir Sergov como vencedor.
— Estranho… — comentou Karlon.
— O que, primo? — perguntou João.
— Potassyr é forte como um touro, não deveria ter se machucado só com um golpe.
— Vai ver ele caiu de mal jeito… — palpitou Arthur.
— Vai ver, deve ser só cisma minha… — falou, ainda desconfiado, Karlon.
De fato, Potassyr logo apareceu na tribuna, tendo o braço direito preso numa tala, o que demonstrava que, aparentemente, ele realmente machucara o braço. Ele se acomodou na plateia para assistir à próxima luta: Sir Will versus Sir Kaist.
— Ansiosa para a luta do seu fã? — provocou Arthur.
— Bobo! — riu Galawel. — Eu só tenho um cavaleiro, Arthur, e é você. Agora vê se presta atenção, Will tem fama de durão e vai ser seu próximo adversário.
— Ele ou Kaist, não?
— Se Will for metade do que dizem, Kaist não terá chance. Eu já vi Kaist lutar, e me espanta ele estar aqui. Aposto que eu conseguiria derrotá-lo.
— Até aí, prima, você não é parâmetro — se intrometeu na conversa Karlon.
— Gente, silêncio, que os cavaleiros já vão entrar — falou João.
Quando Sir Will entrou na arena, esta quase veio abaixo com os aplausos do público. Will era o campeão da cidade e sobrinho da governante; era normal que contasse com o apoio dos locais. Já Kaist entrou debaixo de uma maré de vaias, não só por causa do seu adversário, mas devido à sua má fama, que lá já havia chegado.
Os cavaleiros se posicionaram em extremidades opostas da pista e, ao sinal do juiz, partiram. A lança de Will acertou em cheio o escudo de Sir Kaist, partindo-se com a força do impacto. O mesmo ocorreu com a do cavaleiro humano, e nenhum dos dois caiu do cavalo, embora Kaist tenha oscilado. Eles voltaram às cabeceiras, pegaram novas lanças com seus escudeiros e partiram de novo. A lança de Will novamente acertou o escudo do adversário, enquanto a deste tomou uma trajetória estranha: ela resvalou no escudo de Will e acabou por se alojar no ombro deste, bem entre a placa peitoral e a ombreira.
O juiz encerrou a luta de imediato, devido à incapacidade de Will de lutar, e declarou Kaist vencedor. No meio da confusão que se formara, com parte da delegação de Sir Will protestando e alegando que Kaist mirara o ombro de propósito, o que seria ilegal, Arthur, Gala, João e Karlon correram para a pista para ajudar a socorrer Will. Galawel usava as técnicas de cura aprendidas com seu pai, mas o ferimento era feio.
— E aí, amor? Ele vai ficar bem? — perguntou Arthur, depois que Galawel ajudara a imobilizar o braço do cavaleiro e a estancar o sangramento.
— Não sei, a lesão é bem séria — respondeu a princesa. — Pelo menos parou de sangrar, mas não posso dar nenhuma previsão, e não há nada mais que eu possa fazer.
— Felizmente conhecemos alguém que pode, e já chamei essa pessoa — disse Karlon.
— Ah, não me diga que você chamou ele… — protestou Galawel.
— Sim, prima, chamei o teu pai. Sei que tu gostas de se virar sozinha, de resolver seus próprios problemas, mas a lesão do Will me parece bem séria, podendo comprometer até o braço dele se não for cuidada de maneira apropriada.
— É, eu sei… É que eu não gosto de incomodar o meu pai. E o que ele respondeu, afinal?
— Tio Lukhz disse que virá mais tarde para ver a lesão e pediu para reservarmos um quarto para ele na mesma estalagem em que nós estamos hospedados. Disse que o torneio começou a ganhar a atenção dele e que, de qualquer maneira, já pretendia ver a luta do Arthur, caso ele chegue à final. E ele tem certeza de que o Arthur chegará.
— Ok, sem pressão, né? — sorriu, sem graça, Arthur.
Mais tarde, os quatro se encontravam reunidos, jantando com Lukhz na hospedaria onde eles estavam hospedados.
— E aí, pai? O Sir Will vai ficar bem? — perguntou João.
— Vai, filhote, vai sim. Não sei se ele vai conseguir lutar de novo num torneio, mas pelo menos não vai perder o braço nem os movimentos deste.
— E como ele reagiu à notícia? — perguntou, desta vez, Galawel.
— Surpreendentemente bem, filha. Disse que, se não puder lutar, se dedicará a treinar o primo, Iron, para fazer dele o maior cavaleiro de toda a península oriental.
— Que bom que ele está encarando bem — comemorou Arthur.
— Ah, sobrinho, Lord Rags, tio de Will, pediu para lhe dar um recado — comentou Lucca.
— Qual? — perguntou Arthur.
— Disse que espera que você justifique a fama dos Bianchis chutando a bunda de Kaist para fora do torneio.
— É, só o que eu precisava, mais pressão… — falou, cabisbaixo, Arthur.
— Amor, eu já te falei: confie mais em você. Eu tenho certeza de que não deves nada a ninguém nesse torneio. E, se você quer ficar tranquilo, saiba que, vencendo ou perdendo, eu continuarei gostando de você do mesmo jeito, viu? Apenas entre lá e dê o seu melhor, que eu garanto que o nome “Bianchi” estará bem representado, vença você ou não.
— Minha filha tem razão, Arthur. Ninguém aqui espera que você vença todas as lutas. Eu mesmo já fui derrotado em batalhas e, embora tenha vencido todos os torneios que lutei até hoje, mais de uma vez eu já fui derrubado do cavalo. Saiba que basta que você entre lá e dê o seu melhor para que eu e a sua tia tenhamos orgulho de você e do fato de você namorar a nossa filha.
— Assim você me deixa sem graça, tio… — disse, sem graça, Arthur, enquanto segurava a mão de uma Galawel vermelha de vergonha.
— Apenas estou sendo sincero — sorriu Lucca. — Rapaz, você não sabe, mas eu assisti, disfarçado, a todas as suas lutas em Ocaran, e você tem talento. Agora, meninos, sugiro que descansemos, pois o dia vai ser longo.
No dia seguinte, Arthur acordou cedo, ansioso, pois seria sua estreia no torneio. Ele optou por assistir à primeira luta entre Krot e Sergov da coxia da arena, ao lado de João e Karlon, enquanto Galawel e Lukhz assistiriam da arquibancada.
Na hora da justa, os dois adversários se colocaram em extremidades opostas da pista e, ao sinal do juiz, partiram. No primeiro embate, ambas as lanças se quebraram ao se chocarem com os escudos, mas os cavaleiros não tremeram na base. Ambos voltaram aos seus lugares de partida, pegaram novas lanças e voltaram a se chocar. As lanças novamente quebraram, mas os cavaleiros continuavam de pé. Novamente pegaram lanças novas e partiram, mas desta vez algo ocorreu: a lança de Krot se quebrou no meio, no momento do choque, e, devido à velocidade do cavalo, Krot acabou por acertar o toco de lança na base do pescoço do adversário, numa pequena brecha entre a cota de malha que protegia o pescoço e o elmo.
De maneira fria, o cavaleiro de Erdan se afastou enquanto o juiz declarava sua vitória por incapacidade do adversário de lutar. Lukhz saiu correndo da arquibancada para o centro da arena para ajudar a socorrer o jovem caído; o mesmo fez Arthur, que saiu correndo da coxia. João, por sua vez, sem que ninguém notasse, recolheu a ponta da lança que se quebrara.
Tendo Lukhz conseguido estabilizar o sangramento e salvar a vida do rapaz, o torneio continuou. Era a vez de Arthur enfrentar Kaist. Karlon e Galawel se sentaram para assistir à luta com certa preocupação, pois, menos de meia hora antes, haviam apartado uma briga entre o sempre pacífico Arthur e Kaist, depois que o último fizera troça do que acontecera com Will e com Sergov.
— Estou com medo — disse Galawel. — Eu nunca vi o Arthur daquele jeito.
— Calma, prima, tenho certeza de que sairá tudo bem — falou Karlon.
— Exato, princesa. Pelo pouco que conheço dos Bianchis, quando um Bianchi entra focado numa luta, ele dificilmente perde — comentou Potassyr, que chegara para se sentar ao lado deles.
— Meu medo não é que ele perca, é que ele faça besteira — retrucou Galawel. — Aliás, Potassyr, tu não deverias estar usando uma tala?
— Uma tala? Ah, é, o seu pai me curou — gaguejou o elfo. — Mas me diga, besteira como?
— Bem, Potassyr, para eu confiar em ti, tens que confiar em mim — insistiu Galawel. — Eu estive junto do meu pai até recentemente, e ele em nenhum momento te curou, e eu já te vi lutar; você não se machucaria tão facilmente. Confesse, tu forjaste o machucado.
— Me pegaste, princesa… Eu me tornei amigo do Sergov, e eu o vi tão empolgado falando do torneio, comentando que era a última chance dele, pois ele vai ter que servir na Guarda de Oestpor ano que vem, que achei que não fazia mal deixá-lo chegar pelo menos à semifinal.
— Uma atitude nobre, de fato — sorriu Galawel.
— Agora que eu revelei meu segredo, alteza, é a sua vez.
— Jura pela sua honra que não falará nada?
— Juro.
— Arthur é um meio-dragão verde.
— Eu já sabia disso, minha tia Ariel me contou, mas qual é o problema nisso?
— É que, digamos que, quando o meu namorado se encontra de mau humor, o lado dracônico dele tende a fugir um pouco do controle.
— Prima, Potassyr, sugiro que prestem atenção na pista, o duelo já vai começar.
De fato, os dois se encontravam na cabeceira da pista, com as lanças em riste. João recolheu a bandeirola branca e azul que estava presa na lança de Arthur, enquanto o escudeiro de Kaist recolheu a bandeirola castanha que pendia da lança deste.
Ao comando do juiz, os dois partiram e, quem esperava uma luta longa, se decepcionou. A lança de Kaist acertou o escudo de Arthur, mas este nem tremeu. Em compensação, a lança dele acertou o escudo de Kaist em cheio, com tal força que este caiu do cavalo, bateu com a cabeça no chão e desmaiou, encerrando a luta.
— É, no confronto entre o Dragão e o Lobo, deu o Dragão — brincou Potassyr, numa alusão aos animais presentes no brasão de cada um dos cavaleiros.
Galawel não parou para responder à brincadeira. Correu para o centro da arena, para abraçar e beijar o namorado.
— Ué, eu conhecia uma moça que não gostava de cenas em público — brincou Arthur.
— Bobão — riu Galawel. — Você fez por onde merecer.
Mais tarde, Arthur e Galawel se dirigiam ao hospital local para checar como estavam Sergov e Will, quando testemunharam uma discussão entre Krot e um elfo muito parecido com ele, mas, claramente, mais velho.
— Me deixe em paz, pai. Não vejo por que deva visitar aquele pescador…
— O rapaz se feriu numa luta contigo, meu filho, é o que manda a regra da cavalaria.
— Falas num tom como se a culpa fosse minha. Eu não tenho culpa de ele usar um equipamento vagabundo.
— Eu não disse que a culpa era sua.
— Mas pareceu!
O jovem casal, não querendo ser notado, discretamente os contornou e foi para o hospital. Na antessala deste, encontraram João e Karlon conversando com Lukhz, sendo que João trazia o pedaço da lança de Krot na mão.
— Pai, como estão os dois? — perguntou Galawel.
— Will está cada vez melhor, mas o jovem de Oestpor, bem, é um milagre ele estar vivo. Estou mantendo-o sedado até poder descobrir se houve algum dano maior à traqueia e à coluna — respondeu, não muito animado, Lucca.
— João, o que é isso na tua mão, primo? — perguntou Arthur.
— A ponta da lança do Krot e, olha só — disse João enquanto mostrava o pedaço.
A lança claramente estava serrada e se quebrara justamente no ponto onde havia sido parcialmente cortada.
— É por isso que ela quebrou nesse ponto. O material estava fragilizado e não resistiu à carga — falou Gala, enquanto examinava a peça na mão.
— Exato, mana. Aliás, todas as lanças do Krot estavam assim.
— Ou seja, ele armou para isso acontecer — concluiu Arthur.
— Ou alguém armou para prejudicá-lo — retrucou Karlon.
— Será, Karlon? — duvidou Arthur.
— Karlon está certo, Arthur — comentou Lucca. — Podem ter armado para ele. Afinal, com uma lança mais frágil, ele poderia ter sido derrotado pelo Sergov, em tese, um adversário mais fraco.
— Ou ele pode ter preparado isso para acontecer o que aconteceu — sugeriu Arthur.
— Acho difícil, amor. Krot é arrogante, mas o que ele ganharia ferindo Sergov? — argumentou Galawel. — Por mais que ele o desprezasse, se ele tiver armado isso e isso for descoberto, bem, ele seria banido de todos os torneios.
— É, mas lembre-se da discussão dele com o pai dele… — falou Arthur.
— Meninos, não adianta discutirmos nada aqui. Vamos investigar e tentar descobrir mais detalhes.
O grupo se preparava para sair do hospital quando deu de cara com o pai de Krot.
— Desculpa, alteza — falou ele, fazendo uma reverência para Lucca —, mas eu ouvi parte da sua conversa. Meu filho fez algo de errado?
Eles mostraram ao recém-chegado o pedaço de lança e comentaram o que haviam pensado.
— Eu não sei o que dizer, meu príncipe. O meu grande erro foi deixar a minha irmã educar o meu filho com ideias de que somos melhores do que os outros por sermos nobres. Se puder fazer algo para ajudar…
— Agradeço o oferecimento, Lord Arivald, mas somos capazes de resolver o problema. Além disso, não gostaria de ver um pai investigar o próprio filho, acho um fardo pesado e que deveria ser evitado — retrucou Lucca.
— De fato, é um fardo do qual me poupas, alteza, mas gostaria que me prometesses algo.
— Sim, fale.
— Se o meu filho for culpado, revele isso, não tenha pena dele. Se ele tiver culpa, não merece ser chamado de cavaleiro.
— Atenderei ao seu pedido.
— Agora, se me dá licença, senhor, gostaria de visitar o jovem que o meu filho feriu.
— À vontade.
Com o coração pesado e resoluto, Lord Arivald partiu em direção ao quarto de Sergov.
Parte 04
No dia seguinte, o público novamente lotou a arena para ver a grande final. Não havia tanta alegria no ar, devido aos acontecimentos dos dias anteriores, mas, ainda assim, ninguém que comprara ingresso deixou de comparecer.
A luta atrasou em quase uma hora, devido a uma reclamação formal levada pela delegação de Kaist à organização do torneio, solicitando a eliminação de Krot devido a uma suposta alteração das lanças deste (o que surpreendeu Arthur e os outros, pois, fora eles, só o pai de Krot sabia daquilo) e uma nova luta entre Kaist e Arthur como final, mas a organização decidiu que, sem provas, eles não poderiam condenar ninguém e, uma vez que Kaist havia sido derrotado de maneira correta, caso Krot fosse eliminado, Arthur seria automaticamente declarado vencedor.
Quando o público já se encontrava impaciente, os dois adversários finalmente entraram na pista: Arthur, com sua armadura clara e montado num cavalo baio, enquanto Krot usava sua tradicional armadura escura e se encontrava montado num cavalo negro. Os escudeiros recolheram as bandeiras das lanças, a azul e branca de Arthur e a púrpura de Krot, e o juiz deu o sinal para o início do duelo.
No primeiro confronto, ambas as lanças se partiram ao acertar os respectivos escudos, mas nenhum cavaleiro tombou. Eles pegaram novas lanças e partiram mais uma vez para o confronto. Desta vez, Krot errou o alvo, mas Arthur acertou em cheio, derrubando o cavaleiro de Erdan no chão. Este tentou se levantar, mas estava grogue demais devido ao golpe, e o juiz optou por dar a vitória a Arthur.
Após o duelo, em vez de uma comemoração, uma nova onda de protestos se formou, principalmente vindo da delegação de Kaist, que insistia na tese de desclassificar Krot. Para resolver a confusão de uma vez por todas, o conselho organizador, que, desta vez, era presidido pela Condessa da Costa, uma vez que ela era a anfitriã do torneio, reuniu-se numa grande tenda ao lado da arena.
A condessa estava prestes a dizer a decisão da comissão quando Karlon, João (que trazia com ele vários pedaços de lanças quebradas), Arthur, Galawel e Lukhz entraram acompanhados de um rapaz com um olho roxo. Apesar de sua pouca idade, João se adiantou e falou:
— Senhores e senhoras, para aqueles que não me conhecem, sou o príncipe Johan de Arlon e Erdan e, antes que deem o seu veredicto, peço que me escutem.
— Fale, alteza — sorriu a condessa.
— Primeiramente, eu gostaria de mostrar algo a vós — e, dito isso, ele mostrou o pedaço das lanças. — Estes são restos das lanças usadas por Sir Krot no duelo com Sir Sergov. Como podem ver, elas foram parcialmente serradas; por isso, elas se quebraram de maneira estranha, o que levou ao grave ferimento de Sir Sergov.
— Você está acusando Sir Krot de ter feito isso de propósito, rapaz? — perguntou um dos membros da organização.
— De fato, essa ideia me veio à cabeça. Mas tanto meu pai quanto minha irmã me fizeram ver que seria uma manobra arriscada para Sir Krot recorrer a tal estratagema. Resolvi, então, investigar, e foi aí que conheci esse rapaz, revirando o lixo atrás das lanças quebradas de Sir Krot — falou João, apontando para o rapaz de olho roxo que estava ao lado de Karlon. — Aliás, Sir Krot, você reconhece esse rapaz?
— É o meu escudeiro, por quê? — retrucou o elfo.
— Na verdade, ele é o escudeiro de Sir Kaist. E primo do seu escudeiro, por isso são tão parecidos. O primo dele passou mal no dia da luta com Sergov, e ele o substituiu, e você sabia disso, não sabia?
— Sim, mas qual o problema?
— O problema é que ele serrou as suas lanças, a pedido do patrão dele, não é mesmo?
Karlon empurrou o rapaz para o centro da tenda.
— É verdade… — falou o rapaz, olhando para o chão. — Eu dei um remédio para o meu primo passar mal e depois me ofereci ao Sir Krot para substituí-lo. A ideia do meu patrão era provocar a derrota de Sir Krot, fragilizando as lanças dele, mas o plano não deu certo, e Krot ganhou ainda assim.
— Isso é mentira, é um circo armado para punir o meu filho e não esse trapaceiro — bradou o pai de Sir Kaist.
— Isso nós decidiremos — declarou a condessa.
Depois de meia hora de reunião numa tenda à parte, um servo da condessa mandou chamar Lukhz e, depois disso, o comitê organizador, acompanhado de Lukhz, voltou à tenda maior, onde eram aguardados.
— Antes que perguntem, explicarei por que mandei chamar o príncipe Lukhz — anunciou a condessa. — Houve um empate na decisão do comitê e, assim, como presidente deste, e uma vez que os dois cavaleiros, Krot e Kaist, são de Erdan, optei por abrir mão do voto de desempate e convidar o príncipe Lukhz, esposo da princesa herdeira de Erdan, para dar o voto de desempate. Príncipe, por favor, queira anunciar a decisão do conselho.
— Certo, condessa — disse Lukhz, fazendo uma mesura à dama. — Sir Krot, por não ter informado ao conselho a troca do escudeiro, como mandaria o regulamento, este decidiu suspendê-lo por dois anos dos torneios de cavalaria, uma vez que, se tivesse avisado, uma comissão seria enviada para supervisionar a preparação do seu equipamento, e o acidente que quase custou a vida de Sir Sergov não teria ocorrido.
Krot fez menção de se adiantar para protestar, mas foi contido por seu pai, que, aparentemente, concordara com a decisão tomada.
— Por sua vez, devido às provas apresentadas, o conselho bane Sir Kaist dos torneios por dez anos. O normal, quando o cavaleiro confessa, seria o banimento definitivo, mas, como só se pode contar com o depoimento do escudeiro, foi decidido aplicar uma pena mais branda.
— Branda?! — gritou o Visconde de Vilburg. — Branda talvez para um elfo ou mestiço como o senhor. Meu filho já tem vinte e nove anos. Daqui a dez não terá condições de competir de igual para igual com os outros cavaleiros, e quem defenderá a honra da minha casa? Isso é um absurdo e um abuso, mas vós, como meio-elfo, o que entendeis de envelhecer, alteza?
— Baixe o seu tom de voz, visconde — se meteu na discussão Galawel. — Meu pai é genro do vosso rei, marido da vossa futura rainha e, se isso não bastasse para o senhor, ele é o Arquiduque do Grande Delta, e o vosso viscondado fica dentro da região do Grande Delta, ou seja, o senhor é vassalo dele.
— Calma, filha — falou Lukhz —, as palavras do visconde não me ofenderam. O senhor tem outros filhos, não? Treine-os para lutar por sua casa.
— Tenho duas filhas, “príncipe”, e mulheres não servem para isso. E minha esposa já está velha demais para me dar outro filho varão. Aliás, para mim, mulheres servem apenas para isso, para gerar filhos e cuidar da casa, não para governar ou mesmo lutar.
— É isso o que o senhor realmente pensa? — perguntou Galawel.
— És surda, por acaso? — retrucou o visconde.
Galawel se adiantou e, virando de costas para o visconde, parou diante dos conselheiros e de seu pai.
— Conselheiros, para aqueles que não me conhecem, sou a princesa Galawel Fornorimar Bianchi, condessa de Entrerrios e capitã da Guarda Real de Arlon. Como mulher e como guerreira, sinto-me ofendida pelas palavras tolas proferidas pelo visconde. Assim, solicito uma chance de defender a honra das mulheres e resolver esse impasse: eu desafio Sir Kaist para um duelo. Se ele vencer, a punição será retirada; agora, se eu vencer, Sir Kaist será banido para sempre dos duelos.
O conselho se reuniu num círculo e rapidamente chegou a uma resposta.
— Nós aceitamos sua proposta, alteza — disse a condessa. — Agora, visconde, vós e vosso filho aceitam? Imagino que sim, afinal, vosso filho não vai perder para alguém inferior, como uma mulher, não é mesmo?
— Cla-claro que aceitamos — gaguejou o visconde.
O duelo foi marcado para aquela mesma tarde. E a luta entre Galawel e Kaist foi tão rápida quanto a deste contra Arthur, com a diferença de que a lança de Kaist nem ao menos chegou a encostar na elfa. Jazendo Kaist nocauteado no solo, Galawel caminhou até o suporte de armas dele, pegou a espada que ali estava, caminhou até ficar de frente ao visconde, que se encontrava na arquibancada e, na frente deste, quebrou a espada do filho dele, simbolizando assim o banimento de Kaist dos torneios.
Na noite do mesmo dia, ocorreu o baile de encerramento. Nele, Arthur foi sagrado o “Rei dos Duelos” daquele ano, e Galawel acabou por conceder uma dança a Sir Will, embora este não tivesse vencido, como consolação pelo seu ferimento e como forma de aprovar e incentivar a atitude positiva que ele tivera diante do seu acidente.
Sergov acabou por se recuperar dos ferimentos e, embora impedido de duelar ou mesmo de fazer qualquer grande esforço físico, acabou por montar a primeira academia para cavaleiros em Oestpor, enquanto Kaist e seu pai, o visconde de Vilburg, acabaram por cair em desgraça perante o rei de Erdan e nunca mais foram convidados para eventos importantes no palácio real.

