Galawel entrou um tanto aflita na sala onde o seu pai costumava trabalhar quando estava no Castelo de Arlon, e o encontrou revisando alguns documentos a pedido do rei.
— Pai, pai, você tá sabendo?
— Do que, filhota?
— Parece que o Inus e o Urs andaram se estranhando numa cidade na fronteira de Arlon com Erdan.
— Tô sabendo, sim, só esqueci de te contar.
— Eu não acredito que você esqueceu de me contar isso.
— Foi mal.
— “Foi mal…”. Fofoca boa a gente não pode deixar de contar, pai.
— Ué, eu não sabia que você gostava de fofoca, achava que isso era coisa da Mari.
— Eu não gosto, mas como eu tenho quase certeza absoluta de que o Urs limpou o chão com aquele sapo lá do norte, eu adoraria saber dos detalhes.
— É, foi isso que aconteceu mesmo.
— E?
— E os detalhes, pai!
— Tô pegando no teu pé, filha, calma que eu já conto. Senta aí na poltrona e respira um pouco.
A jovem elfa fez o que o pai havia pedido. Ele, por sua vez, recolheu os documentos que estava revisando, guardou-os em seus respectivos locais, preparou um chá para si e para a filha usando um bule de água quente que um dos servos do palácio havia deixado lá, junto com as folhas que normalmente já guardava no escritório. Serviu o chá em duas xícaras e foi sentar-se numa poltrona ao lado daquela onde a filha se encontrava.
— Toma um gole de chá e relaxa, filhota, que eu já vou começar a história.
— Ok.
“Como você deve saber, desde a ascensão do Marquês de Dumbhar ao governo de Valah, Babuh e Inus — o segundo de maneira mais relutante — têm trabalhado como aventureiros e caçadores de recompensas, visando se sustentar e sustentar suas famílias. Babuh, inclusive, foi morar numa casa menor com suas esposas, enquanto Inus continua no castelo.”
— Isso eu já sabia, pai. Quer parar de me enrolar?
— Tá bom, tá bom — riu Lucca. — Você lembra do Jarol?
— Claro, um dos principais instrutores de esgrima das tropas de Erdan.
— Sim, e neto de Sir Hendrik, um dos antigos companheiros do Urs.
— Eu sei disso, pai, mas por que eu acho que você está me enrolando?
— Calma, eu juro que não estou. Posso continuar?
— Deve!
“Retomando a história, então. Jarol estava em Ocaran para um treinamento conjunto das tropas de Erdan e Arlon. Casualmente, Urs também estava por lá e, quando soube que Jarol estava na cidade, resolveu marcar para conhecer o neto do seu falecido amigo.
Os dois marcaram de se encontrar no bar da Guilda dos Aventureiros. Pelo que me contaram, Urs ficou impressionado com a semelhança física entre Jarol e Hendrik e, depois de meia hora de conversa e algumas canecas de cerveja, os dois já pareciam amigos de infância.
O que parecia que seria uma tarde agradável e tranquila foi interrompida pela presença do teu “tio” Inus e o grupo dele de arruaceiros… ops, de aventureiros.”
— Tio não, pai. Eu tenho dois tios e nenhum deles parece um sapo que pulou numa piscina de lixo tóxico.
— Bela definição, filha. Eu só quis te provocar mesmo.
“Pois bem, estavam os dois a beber sua cerveja, trocando histórias, quando o nosso “honrado príncipe” começou a criar uma confusão por causa do valor de pagamento de uma missão.
Normalmente os funcionários da guilda teriam resolvido a confusão sem precisar de ajuda, mas Inus começou a proferir palavras de baixo calão, ofendendo a honra da recepcionista e Urs, sendo literalmente um elfo das antigas, não conseguiu ficar quieto.
— Meu rapaz, isso não são modos de se tratar uma dama. Tinhas que ser grato pela guilda ter aceitado um meio-orc como ti nas fileiras dela — teria dito ele.”
Galawel se engasgou com o chá rindo, interrompendo a narração do pai.
— Você tá bem, filhota?
— Tô ótima, pai — retrucou a elfa enquanto se limpava. — Agora continue, estou doida para saber a reação dele. Sei que Inus é um tanto sensível com relação à aparência dele.
“Obviamente Inus não podia escutar essa ofensa calado.
— Meio-orc? Eu? Estás senil, só pode. Eu sou um puro elfo nobre do norte.
— Bem, sinto muito pela minha confusão — retrucou Urs. — De fato, posso não aparentar, mas já sou bem velho e andei “fora de circulação” por algum tempo, como diriam os mais jovens. Na minha época eu teria mais chance de ser confundido com um elfo nobre do que ti, rapaz, e eu não era conhecido como “O Urso” à toa. Mas, enfim, o tempo passa e os conceitos mudam. Mais uma vez, peço desculpas pela minha confusão.
— Como prova da minha nobreza, aceitarei vosso pedido de desculpas.
— Bom, como já resolvemos esse pequeno mal-entendido, agora só temos que acertar uma coisa: o vosso pedido de desculpas à recepcionista.
— Não tenho do que me desculpar, ela está errada.
— Acredito que a jovem discorde. Mas não vamos criar um caos. Venho tentando aprender a solucionar as coisas de maneira mais pacífica. E como vejo que és um jovem forte e, imagino eu, orgulhoso de vossa força, que tal resolvermos tudo numa queda de braço, simples e amistosa?
— E o que eu ganho com isso?
— O que ganhas? Além da honra de ter derrotado Urs, o Urso, antigo companheiro dos Reis fundadores de Sudher? Deixa-me ver… que tal isso?
Dito isso, Urs jogou um saco de moedas de ouro em cima da mesa, cujo valor claramente era maior do que o que Inus estava cobrando da guilda.
– Mas, se perderes, pedirás desculpas à atendente e aceitarás o pagamento que ela te ofereceu e não o valor que estavas reivindicando. Que tal? Aceitas?
— Eu cubro a oferta do meu “tio” — completou Jarol, que se mantivera calado até então. — E então, alteza — sim, alteza, sei que és o príncipe de Vallar — aceitarás ou tens medo de perder para um elfo que já passou de um milênio e meio de idade?”
Galawel levantou a mão, como fazia quando criança quando queria interromper as narrações do pai.
— Sim, filhota?
— Ex-príncipe, né, pai?
— Sim, claro, mas Jarol precisava mexer com o ego do paspalho. Posso retomar a história?
— Não só pode como deve!
“Diante da provocação de Jarol e dos olhares de todos ali presentes, Inus não teve escolha a não ser aceitar o desafio.
E, bem, esse foi o grande erro dele. Não sei se você lembra da minha disputa com o Urs, mas ele se mostrou forte o suficiente para me fazer suar. Óbvio que Inus não teve nenhuma chance.
Rapidamente ele bateu a mão do Inus na mesa e ainda rachou a mesa junto, demonstrando, para aqueles de percepção mais afiada, que o aparente controle dele era uma fachada e que, no fundo, ele queria era enfiar a mão na cara daquele sapo-boi que se acha nobre.
Inus, resmungando, aceitou a derrota, se levantou e se encaminhou para a saída da guilda, após ter pego com a recepcionista o valor que esta tinha oferecido a ele desde o início e não o valor que ele queria.”
— Poxa, eu achei que ele tinha apanhado pelo que o senhor falou. Tô até decepcionada com esse fim.
— E quem disse que a história acabou, filhota?
— Não?!
— Claro que não. Agora, se a senhorita me permitir, retomarei a narrativa.
— Com muito gosto que eu permito, meu caro senhor — retrucou Gala, rindo.
“Eu aprendi, há muitos anos, com o meu pai, vosso avô, que o peixe morre pela boca e o homem pelas palavras. E, pelo jeito, os sapos-bois também.
Inus, ao passar novamente pela mesa de Urs, a caminho da saída, passou resmungando que definitivamente Urs só podia ser um velho louco para não reconhecer a pureza dele. Que nunca houvera elfo tão puro quanto ele naquele mundo. Que nem Antigon, o último rei dos elfos, e seus descendentes eram tão puros quanto ele; que mesmo estes pareceriam pessoas comuns perto dele.
E, bem, Urs, que se mantivera controlado até então, não conseguiu se segurar ao ouvir uma ofensa à sua senhora, a antiga rainha Alaria.
— Espere um pouco, rapaz — disse ele, segurando Inus pelo braço. — Escutei bem? Tu acabas de afirmar que és mais nobre do que o grande Antigon e do que a antiga rainha Alaria?
— Sim, afirmei sim. Pelo jeito és velho, mas não surdo. E, para ficar mais claro, caso você esteja senil: sim, sou mais puro do que eles e não contaminei o meu sangue produzindo herdeiros com humanos, como ela e os descendentes dela fizeram.
Digamos que, naquele momento, Inus praticamente assinou sua sentença de morte. Urs não se importava de ser chamado de senil e nunca se importou que debochassem da aparência dele, mas ofender os seus amados senhores? Ofender sua amada rainha e seu amado e falecido rei? Isso o velho elfo não podia suportar.
Antes que qualquer um conseguisse reagir, ele enfiou um cruzado de direita no meio do rosto do Inus, que levou o nosso “querido príncipe” ao chão, praticamente nocauteado.
Ignorando isso, Urs montou em cima dele e começou a socar o rosto do Inus de maneira violenta, como se estivesse pronto para matá-lo ali, com as próprias mãos.
Jarol tentou contê-lo, mas foi inútil; nada parecia deter a fúria de Urs.
Inus só não foi dessa para melhor porque, casualmente, Dohna, a viúva do fundador da guilda, estava chegando ali para uma inspeção na filial.
E, bem, ela não é conhecida como “A Furiosa” à toa, né? Vendo a bagunça que estava acontecendo na sua amada guilda, ela interveio na briga sem pensar duas vezes: usando o seu braço mecânico mágico, deu um soco no Urs que o arrancou de cima do Inus.
Os companheiros deste rapidamente o levaram embora, em busca de um curandeiro, enquanto Urs ficou sentado no chão tomando uma bronca da Dohna.”
— E agora, filhota, o final está mais ao seu gosto?
— Claro!
— Aliás, tem mais uma fofoca que você não deve estar sabendo…
— Qual?
— O velho urso caiu de amores pela Dohna. Digamos que foi amor ao primeiro soco.
— E ela?
— Tá fugindo dele como o diabo foge da cruz…
A elfa começou a rir. Tornou a se servir de mais uma xícara de chá, comeu alguns biscoitos que lhe foram oferecidos pelo pai e foi embora, retomando o seu serviço no castelo e deixando o pai enrolado com os documentos dele.


