O Baile

– Não acredito nisso, Arthur, não acredito que você topou essa ideia maluca. Aliás, você não, você, Miguel e até a Marin – resmungou Gala enquanto tomava café da manhã na cobertura dos seus pais.
– Qual o problema, mana? Você não vive dizendo que ser romântico é bom? – retrucou Miguel. – Eu sei que como presidente do Grêmio eu devo dar o exemplo mas qual o problema de, depois do meu anúncio do baile desse ano, abrir espaço para o meu irmão caçula fazer uma declaração romântica?
– Exato, cunhada, qual o problema nisso? Eu, particularmente, acho bem corajoso da parte dele – completou Marin, que já havia se mudado para a Terra fazia mais de dois anos para conhecer melhor esta e passara a viver com os Bianchi.
– Eu só acho que o João, com 17 anos, tá meio “velho” para declarações românticas na frente do colégio todo.
– Ué, você gostou quando o Arthur lhe levou um buquê imenso de flores lá na tua faculdade no dia do teu aniversario.
– Ah, bem, sei lá. Isso não me cheira bem, apenas isso. E aliás, onde o João conseguiu o dinheiro? Ele andava duro…
– Bem, quanto a isso, amor, eu falei com o teu pai e ele “liberou a verba” – respondeu Arthur.
– Meu pai não muda mesmo, o mesmo romântico incorrigível.
– Relaxa, mana, o que poderia dar errado?
– Fora a menina ser uma das amigas patricinhas da Mari e a chance dele pagar um mico na frente de todo mundo? Nada.
– Gala, você se preocupa demais. Se tivesse algo de errado, a Mari avisaria.
– Será, Miguel?
– Claro, ela é nossa irmã, por mais que ela implique com o João às vezes, ela não deixaria o próprio irmão gêmeo pagar tal mico. Tenho certeza disso.Espero que você esteja certo, Miguel – falou, se dando por vencida, Gala. – Aliás, por falar em Mari, cadê esta?
– Acho que ainda está no banho – comentou Miguel.
– Ela vai se atrasar como sempre…
– Peraí que eu vou chamá-la – se ofereceu Marin.

A jovem, que na Terra possuía cabelos loiros platinados, diferentes do azul piscina de sua terra natal se retirou da cozinha e logo voltou acompanhada da cunhada, Mariana, que, como sempre que tinha que acordar cedo, não se encontrava com bom humor.

– Que foi, Gala? Não é porque nossos pais viajaram que você pode ficar mandando em mim. Se eu me atrasar, problema meu – resmungou a jovem.
– Na verdade, Mari, é problema da Gala sim. Nossos pais a deixaram responsável pela casa e por tudo aqui. Ela e o Arthur até deixaram o apartamento deles de lado para ficar cuidando daqui.”Deixaram o apartamento deles de lado”. Quem escuta você falar, Mig, acha que eles moram no outro lado da cidade e não três andares abaixo. E eu já tenho dezessete anos, o João idem e você dezoito, não precisamos de ninguém tomando conta.
– Eu não preciso mas você, mana, bem, sinto em discordar – provocou Miguel.

Mariana não respondeu com palavras, apenas se limitou a mostrar o dedo médio da mão direita enquanto tomava café.

Todos terminaram de tomar café e seguiram seus rumos.

Já era de tarde, Galawel havia chegado mais cedo em casa pois um professor seu havia ficado doente e aproveitava para ler o jornal em paz na sala quando João entrou como um furacão, correndo para o seu quarto, enquanto era seguido por Marin.

– Marin, o que houve? – perguntou Gala ao encontrar esta parada na porta do quarto de João, tentando convencer esse a sair.
– Resumidamente, cunhada? Seu palpite estava certo. Era tudo uma armação das amigas da Mari. A garota humilhou o João na frente de todo mundo e você sabe como o seu irmão fica quando fica ansioso e inseguro, né?
– Roxo e gago.
– Perfeitamente e isso não ajudou nem um pouco. Fora os “playboys” do terceiro ano que ficaram rindo dele. Ele saiu correndo de lá para não agredir ninguém.
– No que ele fez muito bem.
– Aliás, melhor você me deixar aqui com ele pois o Miguel acabou de me avisar por telepatia que vão ligar para você ir ao colégio por causa da Rebeca e da Mari.
– Meu deus… O que as duas aprontaram?
– Bem, um inspetor pegou as amigas da Mari comemorando a armação e comentando como ela fizera sua parte.
– E a Beca?
– A Rebeca tinha “fugido” da aula para assistir o discurso do Miguel e ao ver umas meninas mais velhas zoando o João…
– Deixa eu adivinhar: enfiou a porrada nelas?
– Exatamente.
– Mais alguma coisas que eu deva saber?
– Fora que eu estourei um bebedouro do lado das peruas que armaram para o teu irmão? Acho que não, até porque ninguém nunca vai provar a minha culpa…
– Ah, bem que eu estava achando você bem calma diante da situação toda, Marin. Fica de olho no João, não deixa ele fazer nenhuma bobagem enquanto eu estou fora.
– Ok.

Gala se arrumou rapidamente e, como o colégio dos irmãos ficava somente à duas quadras do prédio onde morava, optou por ir à pé. Ao chegar lá, foi encaminhada à sala do vice-diretor pedagógico, Professor Thales, um velho conhecido dos seus pais. Ao entrar nesta encontrou este conversando com o seu irmão Miguel enquanto suas irmãs Rebeca e Mariana se encontravam sentadas emburradas num sofá. Ela não pode deixar de notar que no sofá em frente havia duas meninas com olhos roxos e três ensopadas de água.

– Professor, primeiramente me desculpe por tudo – disse Gala ao cumprimentar o vice-diretor.
– Você não tem que se desculpar por nada, Gabriela, seus irmãos aprontaram, não você.
– O professor está certo, Gala, não é sua culpa – concordou Miguel.
– Enquanto os nossos pais estão fora, Mig, nossos irmãos são minha responsabilidade sim então é de bom tom me desculpar. Aliás, a Marin me adiantou tudo que ocorreu e já deixo claro que vou aceitar qualquer punição que você aplique neles, professor.
– Bem, a Rebeca agrediu duas meninas mais velhas, eu entendo bem o porquê mas ela não tinha esse direito, então vou ter que suspende-la por uma semana.
– Ok, concordo. E a Mari?
– Quanto a Mariana, não há provas contra ela, só o que a inspetora ouviu as outras meninas falarem, logo eu não posso puni-la.

Gabriela se agachou diante da irmã e olhando bem séria para esta, disse:

– Mari, eu só vou perguntar uma vez e você sabe que não adianta mentir para mim: você sabia do que iam aprontar com o João?
– Gala, bem…
– Sabia ou não, Mariana? E não ouse mentir para mim!
– Tá, elas falaram por alto mas isso é bem diferente de participar. Eu não tenho culpa de nada e, aliás, foi só uma brincadeira.
– Bem diferente, Mari? Bem diferente?! Você deixa seu irmão ser humilhado em público e você não só diz que não teve culpa de nada como chama de uma brincadeira?
– E você quer que eu chame de que? Bem-feito para o João. Ele realmente achou que uma garota como a Paty ia ficar a fim dele?

Ao ouvir a irmã caçula desdenhar do próprio irmão, Gala não se conteve mais e deu uma sonora bolacha na cara desta. Respirando fundo, a jovem se ergueu, olhou para o diretor como se nada tivesse acontecido e falou:

– Qual a punição que as amigas dela vão receber, professor? Faço questão de que a Mariana receba a mesma punição.
– Elas serão suspensas por uma semana, Gabriela.
– Ótimo. Por favor, suspenda a Mari também.
– Ei, pera lá, Gala, tá maluca? – protestou Mariana enquanto se levantava massageando o rosto. – Se eu for suspensa por uma semana, vou perder provas, vou tirar zero nelas e vou pegar segunda época.
– Azar o seu, pensasse melhor antes de fazer a bobagem que você fez. Agora sente-se no sofá e só levante e fale quando for solicitada.

Mariana geralmente tão desafiadora, ao ouvir a irmã falar no tom que falou, imediatamente se sentou pois ela rapidamente percebeu que aquela diante dela não era mais “Gabriela Bianchi” e sim “Galawel Bianchi, capitã de Arlon” e sabia que a irmã não pensaria duas vezes em dar outro tapa no rosto dela.

– Mais alguma coisa, professor, ou estamos liberadas? – perguntou Gala.
– Bem, creio que não, já havia conversado com o Miguel e passado alguns outros detalhes para ele.
– Ok, então se nos dá licença, professor, nós vamos embora e, mais uma vez, me desculpe por tudo.
– Não se preocupe com isso, faz parte do meu cargo. Aliás, mande um abraço para os seus pais.
– Mandarei, não se preocupe.

Praticamente uma semana se passara e Galawel chegou em casa mais uma vez mais cedo para ter uma desagradável descoberta: apesar de ela ter posto a irmã de castigo e até, com a autorização dos pais, ter confiscado o celular da Mariana, ela encontrou esta de conversa com as amigas, as mesmas amigas que haviam armado para o seu irmão João na sala. Junto das garotas também estavam dois rapazes com cara de uns dezoito anos: um mais fortinho de cabelo escuro e um outro de cabelos dourados, ambos de cabelo cortado curto.

– Mariana, o que essas piranhas estão fazendo aqui? – disse Gala, deixando a educação de lado. – Eu achei que tinha sido bem clara: você está de castigo e incomunicável com o mundo até segunda ordem.
– Quem você pensa que é para me chamar de piranha e proibir a sua irmã de ver alguém? E que merda é essa dessa ideia de ela trocar de escola ano que vem que você sugeriu para os pais de vocês? – protestou uma das meninas, a que atendia pelo nome de Paty e que Gala sabia que era a grande líder por trás da confusão.
– Quem eu penso que sou? Eu não penso, eu sou Gabriela Bianchi, estou na minha casa e sou a responsável pela minha irmã, que é menor de idade, até os meus pais retornarem da Europa. E você é a escrota que armou para o meu irmão caçula, logo, acredite, menina, piranha é pouco perto do que eu realmente penso de você, ok? Quanto à Mari trocar ou não de escola, isso não é problema seu, no máximo é culpa sua. Agora rua, todos para fora da minha casa, agora.
– Vem cá, quem morreu e fez de você rainha, hein? – disse o mais forte dos dois rapazes. – A gente só vai embora quando a Mari quiser. E é bom você pedir desculpa para a minha namorada ou então…
– Ou então o que?
– Ou então eu vou ter que abrir uma exceção na minha regra de não bater em mulher – retrucou o valentão, quase botando o dedo na cara de Gala. – E saiba que eu sou um dos melhores alunos do Mestre Ferreira, principal treinador de MMA da cidade.
– Quantos anos você tem?
– Dezoito, por quê?
– Maior de idade, não preciso me conter…

Sem ao menos suar, Gala pegou o rapaz pelo pulso e torceu o braço dele nas costas e o fez se ajoelhar no chão enquanto lentamente ia torcendo o braço dele mais e mais.

– Seguinte, valentão, se você não sabe, pergunte para o seu mestre do meu pai. Pergunte o que aconteceu na única vez que eles discutiram e ele conseguiu tirar o meu pai do sério. Só pergunte. E, para o seu azar, eu não sou tão calma como ele quando se trata de lidar com idiotas como você…
– Chega Gala – disse Miguel, que havia acabado de chegar da escola acompanhado de João e Marin. – Larga ele, mana, você é a mais velha aqui, tem que se dar ao respeito.
– Ok, Mig, você está certo – retrucou ela enquanto empurrava o rapaz de cara no chão.

O rapaz, muito irritado, fez questão de tentar continuar a confusão mas o outro rapaz o conteve.

– Al, fica quieto, você já fez confusão demais – falou o rapaz loiro. – Aliás, eu não me apresentei ainda, eu sou o Pedro, sou o namorado da Mari.
– Namorado?! – falaram, ao mesmo tempo Gala, Miguel e João.
– É, eu pedi para a Mari não falar nada, pois eu queria esperar seus pais retornarem, sabe, eu gosto de pensar em mim como um cara à moda antiga – retrucou Pedro, estendendo a mão para Gala.
– Bem, Pedro, você que me desculpe mas até segunda ordem, a Mari vai seguir a rotina casa-escola-casa escoltada pelos irmãos – falou Gala, recusando-se a apertar a mão do rapaz. – Quando os meus pais voltarem, se eles concordarem, você será muito bem-vindo aqui, até lá, peço que esperes. Você pode não concordar comigo mas a meu ver o que ocorreu foi bem sério.
– Muito bem, você é a responsável pela casa, então eu vou aceitar como você quer e, João, sinto muito pelo que aconteceu. Se eu soubesse do que ia ocorrer, teria te avisado.
– Ok, Pedro, obrigado pelo apoio – falou de maneira um tanto fria João, como se não acreditasse no que ouvira.
– Ah, Pedro, tu tá de sacanagem que você vai ficar babando ovo desse gago do João e da mandona da irmã dele. Ela quer trocar tua namorada de escola, fode com o namoro de vocês e você ainda a trata bem, parceiro?

Gala fez menção de responder mas João foi mais rápido.

– Pelo jeito tu tem músculo no lugar do cérebro, não é mesmo, Al? Vamos fazer a seguinte aposta: eu contra você, na academia do seu professor, ele como juiz. Se eu ganhar, você e seu bando vão parar de sequer dirigir a palavra à mim na escola e vão parar de pegar no meu pé. O que não vai ser muito difícil, afinal vocês estão quase se formando.
– E se eu ganhar?
– Se por acaso isso ocorrer, eu prometo que vou me esforçar ao máximo para convencer os meus pais a não trocarem a Mari de escola. E eu mesmo trocarei de escola ao fim do ano. Então, temos um acordo ou você está com medo?
– De um covarde como você? Nunca. Temos um acordo.

Depois de acertado o duelo, as visitas finalmente se retiraram.

– João, tem certeza de que essa foi uma boa ideia? – perguntou Miguel.
– Mig, idiotas como ele só entendem a força.
– Mas e se você perder?
– Meu amor, você imagina realmente o seu irmão, escudeiro da Capitã de Arlon, perder para um gorila como esse? – comentou Marin
– É, pergunta besta a minha – respondeu Miguel.

No sábado seguinte João, acompanhado de Gabriela, Miguel e Marin, se dirigiu para a academia do Mestre Ferreira, onde aconteceria a tal luta.

Enquanto esperava por eles, o Mestre conversava com Pedro, que também era aluno da academia e tinha ido para lá para assistir à luta.

– Mestre, qual a sua relação com o pai do João? A irmã dele mencionou que vocês se conheciam.
– Bem, Pedro, de fato, eu conheço o Dr Lucca já a algum tempo. E até lutamos uma vez.
– Lutaram? O pai deles não parece ter o perfil de lutador.
– Não, não parece mas ele é faixa preta de judô.
– E o senhor ganhou, certo?
– Não.
– Não?!
– Sabe outro dia, quando eu conversava com vocês sobre a importância das derrotas, que muitas vezes uma derrota nos ensina muito mais do que uma vitória e de que uma derrota numa luta amadora me fez mudar minha maneira de pensar sobre muitas coisas?
– Sim, claro que lembro, lembro também que o Al não entendeu metade do que o senhor explicou.
– O Alfredo é dedicado, é bom lutador mas realmente pensar não é o forte dele. A pessoa que me derrotou foi o Dr Lucca. Eu comprei a briga com ele por causa de uma discussão envolvendo nossas esposas e, sinceramente, achei que ele não ia nem aparecer mas ele apareceu, acompanhado do irmão mais velho dele.
– O comentarista de TV?
– Não, um mais velho ainda, que mora no interior, parece e, que, acredite, tinha um ar meio intimidador.
– Intimidador como?
– Tipo um viking daqueles de filme só que com roupas modernas. E o próprio Dr Lucca me surpreendeu. Eu me orgulho de ter um bom olho para julgar os adversários, de ser capaz de analisa-los pelo olhar, pelo jeito de andar e o adversário que entrou na minha academia naquele dia não era um simples médico mas alguém que eu classificaria como um guerreiro experiente, alguém que realmente se impunha só pela presença. E mesmo assim eu fui arrogante. E paguei o meu preço. E sabe, em parte eu espero que o Alfredo perca para ter a mesma lição.
– O senhor espera que o Al perca? Mas o senhor mesmo outro dia disse que via ele como o futuro da Academia.
– E vejo. Só que infelizmente vejo o Al arrogante também. O que ele fez na casa do Dr Lucca, de gritar com a filha dele e pôr o dedo no rosto da moça foi um absurdo.
– Só que ela está longe de ser uma dama indefesa, mestre.
– Não importa, Pedro. E não importa se vocês concordam ou não com o castigo que ela impôs à sua namorada, o que importa é que ela é a irmã mais velha da sua namorada e a “dona da casa” na ausência dos pais dela e deve ser respeitada como tal, coisa que o Alfredo não fez.
– Visto por esse lado.
– Exato, então por isso que eu digo que um pouco de humildade não faria mal a ele antes dele se aventurar pelo meio profissional.
– Entendi o seu ponto de vista, mestre, não concordo mas entendi. E concordo com o que o senhor disse sobre a atitude dele outro dia. Eu também não gostaria que gritassem comigo dentro da minha casa.
– Perfeito. Agora deixa eu ir cumprimentar os nossos visitantes, acabaram de chegar.

Mestre Ferreira foi em direção aos irmãos Bianchis, que haviam acabado de entrar na sala onde a luta ocorreria. Gala vestia um quimono de judô e trazia uma faixa preta na cintura enquanto João usava um quimono com uma faixa marrom. Já Miguel, por sua vez, usava roupas comuns, uma camiseta e uma calça jeans, como se deixasse claro que não era um lutador e o mesmo fazia Marin, ao usar um vestido comum, florido porém o casal não conseguiu enganar os olhos do Mestre que viu que os quatro se portavam como guerreiros experientes que adentravam em território inimigo.

Foi com um sorriso que o experiente Mestre os saudou:

– Sejam bem-vindos à minha academia. Lamento por tudo o que aconteceu e que levou a esse duelo mas sejam bem-vindos. Aliás, agradeço a confiança em mim depositada para servir de juiz do duelo.
– Nosso pai sempre falou bem do senhor, Professor Ferreira – respondeu Gala.
– Gosto muito do seu pai, sempre quis que ele se juntasse à minha equipe de professores mas ele nunca aceitou. Aliás, me falaram muito bem de você. Da maneira que você conteve o Alfredo sem se esforçar. Estou pensando em montar uma equipe de MMA feminino. Lhe interessa?
– Não, mas obrigada pelo convite.
– Definitivamente você é filha do seu pai – riu Ferreira. – Agora, imagino que vocês tenham pressa em começar o duelo, certo?
– Certo – concordou Gala.
– Ok, as regras serão aquelas que combinamos pelo telefone, Gabriela. E o seu irmão terá que usar isso – e dito isso, Ferreira entregou para João um protetor de cabeça como o usado no boxe olímpico.
– Obrigado senhor mas não é necessário, não tenho intenção de deixar o Al me acertar.
– Gosto da sua confiança rapaz mas você é menor de idade e você está na minha academia e, portanto, sobre minha responsabilidade. Ou você usa ou não haverá duelo, ao menos não aqui – respondeu, num tom mais sério, o dono da academia.
– João, ele está certo, é para o seu bem – concordou Gala.
– Ok, mana, eu uso.
– Bem, alguma dúvida sobre as regras ou podemos começar o duelo? – perguntou Ferreira.
– Não, nenhuma.
– Ótimo!

Mestre Ferreira foi até onde Al estava, trocou algumas palavras com o rapaz e logo ambos estavam no centro do ringue de boxe que havia na academia e que serviria de local da luta. A maioria dos alunos da academia estavam confiantes na vitória de Al, achando que o fato do rapaz usar quimono só tornaria essa ainda mais fácil, pois Al teria mais locais onde agarrar o adversário enquanto ele, usando apenas um short, tornava a vida de um lutador de judô, arte marcial que preza pelo agarrar, mais difícil. Aliás, um único aluno não tinha certeza da vitória: Pedro, por tudo que o mestre havia dito e pelo que ele havia presenciado no outro dia.

O gongo soou e a luta começou. Al partiu com tudo para cima do João mas este só se desviou com um jogo de corpo, agarrou o punho do adversário e aplicou um ippon seoi nage quase perfeito no adversário.

Al levantou grogue mas, confiando na sua suposta maior força física, tentou novamente acertar um soco em João que, mais uma vez, com precisão, o arremessou de novo de costas no chão.

O valentão não se deu por vencido e, mais uma vez, já mais grogue ainda, tentou partir para cima do adversário e novamente foi jogado de costas no chão. Ele ainda estava se levantando, de quatro, tentando ganhar algum equilibro quando João se aproximou por trás e encaixou um estrangulamento nele.

O rapaz fez menção de não desistir da luta mas o Mestre Ferreira, como juiz da luta, tratou de encerrar esta, declarando João vencedor.

João comemorava a vitória com os irmãos e com a cunhada quando um furioso Al o abordou.

– Seu covarde, essa luta não conta, você ficou usando essas suas técnicas de mulherzinha comigo em vez de trocar soco comigo.
– Fica quieto, Al, você perdeu – reclamou Pedro.
– Fico nada, Pedro, isso é um covarde mesmo, não quis trocar soco comigo porque deve socar que nem uma menininha.
– É um duelo de socos que você quer? – perguntou João.
– É.
– E eu soco que nem uma menina, foi isso que você afirmou, certo?
– Você é surdo ou retardado, mermão? Foi isso mesmo que eu afirmei.
– Ok, então vamos fazer um duelo de socos. Primeiro eu dou um soco em você. Se você não cair, você me soca e assim por diante até um cair. Só não pode socar o saco. Combinado?
– Fechado!
– Mestre, você não vai concordar com isso, vai? – perguntou Pedro.
– Vou. Creio que teremos um resultado interessante.

À distância, diante dos comentários machistas de Al, Miguel sorriu e falou para Marin e para Gala:

– “Soca como uma menina”… Só quem nunca tomou um soco da Gala é que tem coragem de usar isso como sinônimo de soco fraco…
– Obrigado pelo elogio, Mig mas vamos prestar atenção porque eu tenho certeza de que essa segunda luta vai ser ainda mais rápida – comentou Gala.

Os dois lutadores pararam de pé, no centro do ringue, as outras pessoas que estavam no ringue se afastaram para o duelo ocorrer sem interferências.

– Posso começar? – perguntou João
– Vai em frente, faça um cafuné em mim – provocou Al.

João simplesmente fechou o punho e deu um soco na barriga do seu adversário que o fez cair no chão, dobrado de dor. Feito isso, ele, os irmãos e a cunhada se despediram do Mestre e foram embora.

– Eu não cheguei a te contar como perdi a luta, não é mesmo? – comentou Ferreira com Pedro enquanto via os outros alunos acudirem Al.
– Não, mestre.
– Bem, foi a derrota mais rápida da minha vida: depois de se desviar de uns dois ou três socos meus, o Dr Lucca fechou o punho e me deu um cruzado no rosto que me levou à nocaute e me arrancou dois dentes.
– Foi por isso que o senhor não interferiu no desafio de socos? Porque sabia que com o João socando primeiro, dificilmente ele perderia?
– Exatamente. Ele arremessou o Al com extrema facilidade, o que, para mim, me deixou claro que ele, como o pai dele, era bem mais forte do que aparentava e eu imaginava que como mestre dele o pai dele provavelmente teria ensinado ele a socar do mesmo jeito que ele soca. E acredite, o soco do Dr Lucca me pareceu naquela luta um verdadeiro coice de cavalo.
– É, imagino que o Al desta vez aprendeu a lição de humildade que o senhor queria.
– Assim espero, Pedro, assim espero.

Quase um mês se passou e a noite do baile chegou. Lucca e Ardriel já haviam retornado da Europa e se arrumavam para ir ao baile de formatura de Miguel e Marin. Aliás, a família toda iria: Gabriela, Miguel, Mariana, João, Rebeca (que só estava indo graças à presença dos pais), Marin (que bem ou mal era uma das formandas e já era praticamente da família), Arthur e até mesmo os filhos de Sieg: Rosa, Jamin e Karlon. Os outros sobrinhos do Lucca que moravam no Rio, filhos do seu irmão do meio Giordano haviam sido convidados mas casualmente um deles se formava no mesmo dia em outra escola.

Mariana, sem nem ao menos antes bater na porta do quarto dos pais, foi entrando já neste reclamando.

– Pai, fala sério, porque o Karlon tem que ser meu acompanhante? Por que eu não posso ir com o meu namorado?
– Filhota, eu realmente não tava a fim de discutir isso de novo contigo – suspirou Lucca. – Mas vamos lá: em primeiro lugar, você ainda está de castigo por causa daquilo que aconteceu com o seu irmão. Você só está indo no baile porque eu tinha prometido à você que você iria e eu detesto quebrar minha palavra. Como o seu castigo lhe impõe uma liberdade vigiada, achei por bem que o Karlon fosse o seu acompanhante, para ficar de olho em ti. Por fim, o tal rapaz, o tal Pedro me parece um bom rapaz, educado e tudo mais mas ainda não foi aprovado por mim e pela sua mãe.
– E desde quando eu preciso que vocês aprovem ou não o meu namorado?
– Bem, filha, enquanto você morar sobre o nosso teto, for sustentada por nós e for menor de idade, sim, nós poderemos aprovar ou não o seu namorado. Agora deixa a gente terminar de se arrumar e vá ver se seus irmãos e primos estão prontos pois a limusine de vocês deve estar quase chegando.
– Mãe… – falou Mariana para mãe, como se suplicasse uma ajuda.
– Minha filha, desculpa, mas desta vez eu concordo totalmente com o seu pai.
– Ok, eu perdi. Mas vocês têm certeza de que não querem ir conosco?
– Ué, minha filha, achei que você já tivesse naquela fase de que é “mico” chegar junto dos pais.
– Até é um pouco mas ao mesmo tempo não me importo de chegar ao lado dos pais mais lindos da festa.
– Obrigado pela massagem no ego, filhota mas agora eu e sua mãe precisamos mesmo nos arrumar.

Vendo que não tinha mais o que argumentar, Mariana foi até o encontro da “ala jovem” da família, que se encontrava já toda pronta na sala. Ela não provavelmente nunca admitiria mas dificilmente alguém superaria a beleza dos “Bianchis” na festa. Seu irmão Miguel se encontrava vestindo um smoking, assim como os demais formandos, mas, diferente dos outros, ele tinha um ar que condizia com o príncipe que ele era, com o rosto trazendo uma mistura harmoniosa dos traços dos seus pais. Karlon, que geralmente usava roupas simples em Noritvy, estava com um bem alinhado terno escuro, com discretas riscas cinzas escuras e uma gravata cinza escura e em vez de um caipira, o que estava ali era quase um príncipe nórdico, com o seu cabelo loiro preso num rabo-de-cavalo. Se não fosse o desejo de entrar com seu namorado, Mariana não teria problema algum em entrar na festa com o primo pois tinha certeza de que faria muita inveja nas suas amigas. João, assim como o primo, usava um terno “risca de giz” com uma gravata grená escura que caíra muito bem nele. Por fim, seu cunhado Arthur trazia os cabelos loiros cortados curtos e, seguindo o que havia combinado com João e Karlon, usava um terno “risca de giz” com uma gravata verde escura. Mariana incialmente havia achado uma ideia maluca os três e também o pai dela usarem ternos parecidos mas agora ela tinha que reconhecer que estavam formando um belo conjunto.

As mulheres não ficavam atrás no quesito elegância. Sua cunhada Marin trazia os cabelos platinados soltos, com apenas uma trança caindo pela frente e vestia um lindo vestido azul-claro feito em Noritvy que valorizava seu corpo esguio. Gala usava um vestido verde escuro, combinando com a gravata do namorado e trazia o seu cabelo castanho claro preso numa longa trança e, naquele vestido e arrumada daquele jeito, parecia mais uma princesa, o que ela era de fato, do que uma capitã do exército, o que ela também era. As primas de Mariana, Rosa e Jasmin, duas lindas elfas loiras, altas e com belos e harmoniosos corpos, haviam escolhidos visuais parecidos mas que retratavam bem suas personalidades: Jasmin, a mais tímida das duas vestia um vestido rosa claro feito em Noritvy feito de um tecido leve, que caia suavemente pelo corpo, valorizando este sem mostrar muito e trazia o cabelo loiro preso numa longa trança enquanto sua irmã Rosa, famosa por ser mais ousada do que a irmã, vestia um vestido vermelho sangue, feito de um tecido leve mas com um grande decote em v na altura do busto e um decote nas costas que ia até quase a bunda e se encontrava com os cabelos loiros soltos, fazendo um estilo quase “fêmea fatal”. A irmã caçula de Mariana, Rebeca, cujo corpo ainda se encontrava na transição entre uma menina e uma mulher, vestia um discreto mas belo vestido violeta. A menina, já com quinze anos, desejava usar algo mais ousado mas a mãe delas proibira.

E a própria Mariana estava muito bem, vestia um vestido prateado, com um discreto decote na altura do busto e trazia seu cabelo escuro solto, à exceção de uma trança que caia pela frente, assim como o cabelo de sua cunhada Marin, com a diferença que havia fios prateados trançados junto com o cabelo dela, fazendo um contraste bonito entre a prata dos fios e o castanho escuro do cabelo.

– Mari, que bom você chegou, a limusine já está lá embaixo nos esperando. Beca, você avisa o pai e a mãe que a gente já foi, ok?
– Tá bom, Mig.

Como os nove não cabiam no mesmo elevador, eles se dividiram em dois grupos, com João descendo com os primos na “segunda leva”.

– Primo, lembre-se que nós somos as suas acompanhantes, então na hora de entrar tu tens que entrar com nós duas – falou Rosa.
– Ok, eu dou um braço para uma e outro para outra.
– Dar o braço não, João, um braço na cintura de uma e o outro na cintura de outra.
– Na cintura? – falou João, um pouco vermelho.
– Na cintura, priminho – disse Jasmin. – Eu particularmente acho homens tímidos fofos, primo, mas tu tens que ter um pouco de confiança em ti mesmo. Tu és um príncipe, primo, além de um ótimo guerreiro e filho de um dos casais mais corajosos da história de Noritvy, tente ao menos copiar um pouco a coragem deles.
– Calma, meninas, desse jeito vós dareis uma pane na cabeça dele – interveio Karlon. – João, lembre-se: a nossa ideia é mostrar para todos que tu estás acima das provocações que sofrestes, é jogar na cara que nada do que eles fizerem vai lhe abalar. Então, quando chegares na festa, passe os seus braços pelas cinturas das minhas irmãs e entre naquele salão confiante, de queixo erguido. Como costumas fazer nos duelos em quais luta lá em Noritvy, ok?
– Mas Karlon, desse jeito eu entrar lá parecendo um cafetão com suas meninas. O que vão pensar das suas irmãs?
– Não importa o que vão pensar de nós, priminho, o que importa é que vejam esse cara bonito que tu és, mostrando esse lado corajoso que tu tens e “escoltado” por duas loiras lindas – respondeu Rosa. – O que importa é deixar todos no salão de queixo caído e babando de ciúmes. O que vão pensar de nós não importa, afinal não moramos por aqui mesmo.
– Minha irmã disse tudo – concluiu Jasmin.
– Ok, tentarei seguir as instruções de vocês – disse João, totalmente resignado.
– Assim que se fala, primo – disse Karlon dando um tapinha nas costas de João.
– Aliás, minha vez de dar uma dica para vocês – comentou João. – Se a ideia é vocês não chamarem muito a atenção, tentem usar mais o “você” e o “vocês” em vez do “tu” e do “vós” na hora de falar. Vocês acabam soando de uma maneira muito formal e o ideal é falarem de uma maneira mais “coloquial”.
– Ok, tu, quer dizer, você está certo – concordou Karlon. – Eu e a Jasmin até andamos praticando, por sugestão da Gala. Só a Rosa que não quis.
– Não porque tem uma maneira muito mais fácil de resolver isso – retrucou Rosa.

A jovem elfa encostou o dedo indicador direito na testa do primo, fez esse brilhar e depois encostou na própria testa.

– O que você fez, prima? – perguntou João.
– Ora, priminho, até parece que você nunca viu seu pai e sua irmã fazerem isso, uma simples magia de transferência de conhecimento. Bem mais rápido, prático e simples que ficar treinando – respondeu Rosa.
– Quer dizer que eu e Jasmin ficamos treinando à toa?
– Exatamente mano – sorriu Rosa. – No carro, à caminho da festa, eu faço o mesmo em vocês.

Os jovens desceram do elevador, encontraram com os outros, que já o esperavam e embarcaram na limusine.

De fato, como Mariana esperava, a chegada deles chamou a atenção de todos que já estavam ali, admirados com a beleza e a elegância deles. E Rosa acertou no que falara: João, ao entrar “escoltado” pelas primas foi o de todos o que chamou mais atenção, com quase todos os homens e mulheres do salão olhando para ele. João, normalmente ficaria sem graça diante de tantos olhares mas se lembrou do que Rosa havia dito para ele e resolveu que ali ele seria não João Bianchi mas Johan Bianchi e que veria aquele local como uma arena de luta ou um salão cheio de nobres esperando por um deslize seu e, cheio de confiança, caminhou até sua mesa de braços dados com suas duas primas.

A festa começou até bem mas, não fazia muito tempo que eles haviam chegado, um pequeno comitê foi até a mesa deles. Este era liderado por Paty junto com as duas outras amigas que haviam ajudado ela a armar para cima de João (e que tinha ganhado de Marin o apelido de trio ternura) e dois formandos do terceiro ano, que curiosamente, não eram nem Pedro nem Al.

– Mari, venha para nossa mesa, o Pedro está lhe esperando lá e guardamos um lugar para você – falou Paty, sem se dar ao trabalho de cumprimentar ninguém.
– Paty, mais tarde eu até vou mas eu prometi aos meus pais que não ia sair do lados meus irmãos até eles chegarem, depois eu vou se eles não se opuserem.
– Não acredito que você vai ficar bancando a filinha obediente.
– Foi a condição que a minha mãe impôs para me deixar vir, Paty, e você sabe bem que nenhum dos meus irmãos me dará cobertura e eu já me meti em confusão demais esse ano.
– Você que sabe. Aliás, João, quanto você pagou para essas duas virem contigo? Porque claramente nenhuma mulher viria de graça com um gago como você, não é mesmo?
– E por que não viríamos? – perguntou Jasmin. – O João é um cara cheio de qualidades, um verdadeiro príncipe.
– Príncipe? Hahahahaahahah – riu um dos homens que acompanhava Paty. – Gata, se você e a tua amiga loira quiserem saber o que realmente é um homem de verdade, eu e o meu amigo estamos solteiros.
– Esquece, Ric, essas aí tem cara de custarem muita grana – debochou Paty.
– João, uma dessas gralhas aí foi a garota burra que te esnobou? – perguntou Rosa, que se mantivera calada até então.
– Fui eu mas eu to longe ser gralha ou burra, burra é quem anda por aí com um merda desses aí como o João.
– Sinto em discordar, burra e cega que não é capaz de ver as qualidades do meu primo.
– Primo? Ah, tá explicado tudo, a priminha ficou com pena dele… – disse, gargalhando, Paty.
– Se eu tivesse apenas com pena, não faria isso, não é mesmo? – retrucou Rosa e, logo após dizer isso, passou a mão pela nuca do primo, puxou o rosto dele contra o dela e deu um senhor beijo nele, longo, de língua.

Antes que João pudesse falar qualquer coisa, Jasmin, copiando o exemplo da irmã, também puxou o primo e também o beijou.

– E aí? Ainda acha que é só pena? – provocou Rosa

Paty não conseguiu falar nada, só se retirou, vermelha de raiva, sendo zoada pelos amigos. No meio do caminho ela e duas amigas do nada tropeçaram e caíram de cara no chão.

– Rosa, o que você fez? – perguntou Gala, num tom sério.
– Beijei o seu irmão?
– Isso eu vi, me refiro ao tombo.
– Nada.
– Tem certeza?
– Ah, na verdade prima, desta vez fui eu – disse Jasmin, um pouco tímida. – Digamos que eu “sem querer” talvez tenha feito o elástico da calcinha delas cederem e estas meio que caíram e elas, com o vestido justo e as calcinhas enroladas nas pernas acabaram tropeçando e caindo.
– Eu devia reclamar por você ter usado magia mas não consigo – falou Gala rindo. – Ainda bem que os meus pais não viram isso.
– Eu não achei graça nenhuma – resmungou Mariana.
– Ah, prima, confessa, elas são suas amigas mas foi engraçado, vai – insistiu Karlon.
– Tá bom, foi engraçado mesmo, reconheço – sorriu Mariana.
– Bem, eu tenho que fazer uma confissão – falou Rosa – eu joguei o “Bafo de Dragão” nos dois rapazes…
– “Bafo de Dragão”? – retrucou Gala.
– É um feitiço que a minha irmã inventou, prima, e que deixa o alvo com bafo bem ruim por pelo menos uns três dias – explicou Karlon.
– Eles mereceram, vai… – disse Rosa.

Ninguém ali teve coragem de discutir, pelo contrário, riam pensando nos dois rapazes tentando cantar alguém com um “bafinho de cemitério”. Nenhum outro incidente ocorreu e logo logo Lucca e Ardriel chegaram acompanhados de Rebeca. O cavaleiro, assim como os demais rapazes, à exceção de Miguel, usava um terno escuro com “risca de giz” e uma gravata azul marinho, bem escura. Já Ardriel usava um belo vestido azul marinho, que combinava com a gravata do seu marido, com um decote na altura do busto e com uma fenda nas costas que ia até o meio desta. Apesar de, na Terra, a princesa já ter quarenta e três anos, ela facilmente era uma das mulheres mais belas na festa, se não a mais bela de todas.

Bem mais tarde Al e Pedro urinavam no banheiro masculino da festa enquanto conversavam.

– Mermão, você reparou o quão gata a tua sogra está? – comentou Al. – Se a Mariana puxar a mãe, parceiro, tu tá feito maluco. Imagina a mulher passar dos quarenta, ter uma porrada de filhos e continuar gata assim? Perfeito né?
– Al, as vezes eu acho que você é retardado, cara. Quem escuta você falar até acha que eu gosto daquela patricinha mimada. Você esqueceu que eu só estou com ela para tirar o cabaço dela?
– Ah é, esqueci. Mas pelo jeito não vai ser hoje, parceiro, ela vive escoltada pelos irmãos e por aquele primo assustador dela.
– Tem que ser hoje. Gastei mó grana subornando os garçons e o pessoal da firma que tá organizando a festa para preparar um cantinho lá no mezanino do salão que não está sendo utilizado. Hoje eu vou conseguir levar ela para lá e fazer ela gemer como uma cadela, você vai ver.
– Cara, toma cuidado com o que você fala, mermão, vai que alguém escuta…
– Quem vai escutar, Al? Estamos só nós no banheiro, cara. To achando que você virou covarde. E aquele primo dela não tem nada de assustador, tem mó cara de jeca deslumbrado isso sim.
– Tá bom, parceiro, eu avisei…
– Deixa de ser covarde, Al – reclamou Pedro e depois emendou, gritando: – Ó, se tiver alguém aqui nesse banheiro saiba que vou descabaçar aquela vadia da Mariana Bianchi e fazê-la gemer como a cadela que é.

A porta da cabine de privada que estava bem atrás de Pedro se abriu sem que esse notasse e alguém grande e largo saiu desta.

– Sabe, idiota, você deveria ouvir melhor o seu amigo – falou Karlon enquanto erguia Pedro do chão pelo pescoço, por trás. – E o que eu devo fazer com um pedaço de merda como você? Hum, já sei.

Sem se importar com espernear do rapaz e com uma facilidade absurda, Karlon o jogou de cara dentro da privada que ele acabara de usar.

– Ops, desculpe mas algum porcalhão usou essa privada para fazer um número dois, como vocês costumam dizer e esqueceu de dar descarga. Você poderia fazer o favor de limpar a privada? – falou ele enquanto afundava a cara de Pedro n’água com o pé e dava descarga na privada ao mesmo tempo.

Como se não tivesse ocorrido nada, Karlon calmamente saiu do banheiro, deixando um molhado Pedro e um assustado Al para trás. Diante daquela cena, Al prometeu para ele mesmo que nunca mais compraria uma briga com alguém daquela família.

– Primo, onde você molhou o pé? – perguntou Miguel à Karlon quando esteve voltou à mesa da família.
– Bem, respingou um pouco quando eu enfiei a cara do namorado da Mari na privada…
– Você fez o que com o meu namorado?!
– Isso aí que você ouviu prima. E antes que você reclame, você queria o que? Que eu ficasse quieto depois de eu ouvir que ele tinha subornado os garçons para poder te levar para um canto, tirar sua virgindade e te fazer gemer como uma cadela?
– Ele não disse isso… – falou Mariana, assustada, quase chorando. – Disse?
– Com essas palavras, prima – respondeu Karlon. – Mas por favor, não chore, ele não merece suas lágrimas e você merece algo muito melhor.
– É, ele deu sorte que foi você que ouviu isso, Karlon e não o meu pai – comentou Gala. – Arthur, por favor seque o pé do Karlon, Mari, meu amor, não chore por causa desse traste e por favor, não comentem nada com os meus pais, ok?

Todos concordaram de cara com a Gala. Quando Lucca e Ardriel voltaram da conversa que estavam tendo com alguns dos professores que lá estavam notaram as marcas de lágrima no rosto da filha mas quando esta disse que apenas havia brigado com o namorado, não fizeram mais nenhuma pergunta, Ardriel só se limitou a abraçar a filha enquanto Lucca fazia uma cafuné na filha e pedia para ela relaxar pois ela conseguiria facilmente arranjar alguém melhor.

A festa finalmente seguiu sem mais percalços e, na hora da valsa, tirando Mari, todos foram para a pista de dança. Lucca com Ardriel, Gala com Arthur, Miguel com Marin (que acabaram sendo eleitos o rei e a rainha do baile), João que ficou se desdobrando para dançar com Rosa e Jasmin e até mesmo Rebeca, que acabou por dançar com o irmão caçula de um amigo de Miguel.  

Como Mari não quis dançar, Karlon, à pedido de Miguel e Marin, tirou para dançar uma amiga deles que não tinha par nenhum pois nenhum dos rapazes do colégio haviam se interessado por ela. Para o elfo foi um simples ato de gentileza mas para aquela moça, ser chamada para dançar por um homem bonito como ele foi algo tornou aquela noite realmente especial.

Especial como também o foi para a família Bianchi.

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