– Amor, tens certeza de que queres fazer essa viagem? Estás grávida de seis meses…
– Lucca, meu amor, entendo a sua preocupação, mas uma simples viagem a Nova York não vai afetar a gestação da Rebeca.
– Não tô falando da viagem, mas sim do estresse que você pode passar nela.
– Eu sei, mas é por isso que você vai junto: para me proteger do estresse.
– Não dá para deixar o Eukhadi cuidar de tudo, como ele tem feito desde que o velho mago faleceu?
– Os diretores estão cada vez mais pressionando, e agora que o Fundo tem um rosto, não vejo por que continuar enrolando.
– Vejo que não vais ceder.
– Não mesmo, querido, você sabe bem. E eu faço questão de que você vá junto não só para me acompanhar e me proteger do estresse, mas porque você sabe que, embora eu seja “o rosto” do Fundo, na verdade ele é seu — afinal, você é o campeão da Terra segundo os protocolos antigos.
Lucca se pegou pensando no que a esposa dissera. O Fundo era exatamente aquilo que o nome sugeria: um fundo de investimentos criado pelo velho mago na Terra, na virada do século XIX para o XX, usando recursos fornecidos pelos Reis de Arlon e Erdan. Naquela época, o feiticeiro atuava como campeão interino de Noritvy e da Terra, seguindo os protocolos antigos que colocavam a Terra sob a supervisão de Noritvy. Como campeão, ele precisava ter poder para influenciar o destino de ambos os mundos. Em Noritvy, a linguagem do poder era a magia — e essa ele dominava com maestria — mas, na Terra, já então, a linguagem do poder caminhava para ser o dinheiro. Por isso, julgou necessário dominar esse poder também.
Enquanto os documentos eram exclusivamente de papel, fora fácil para o falecido mago manter uma rede de identidades falsas como proprietários e gestores do Fundo, e até criar uma falsa família norueguesa como dona do Fundo (nas palavras dele, escolhera a Noruega por ter gostado da bandeira). Mas, com o avanço da sociedade digital, ficara mais fácil questionar a veracidade dos documentos.
– Por que você está sorrindo, amor?
– Eu simplesmente me lembrei de quando o velho mago me entregou os seus documentos falsos, quando você veio para a Terra pela primeira vez, e da resposta que ele me deu quando perguntei por que um passaporte norueguês.
– E o que ele respondeu mesmo?
– Ele sorriu daquele jeitão que só ele sabia sorrir e disse: “Eu gostei da bandeira deles.”
– Haha. Era bem a cara dele fazer isso.
– Sim, sim, mas eu sigo preocupado com a validade desses documentos.
– Eu entendo, mas o Eukhadi me garantiu que não tem como detectar nada de errado. Ele, com ajuda de dois dragões do plano superior — que são fanáticos por tecnologia, vê se pode — testou toda a parte digital dos documentos e até contratou uma agência de detetives particulares para investigar a minha “família” e o Fundo, e esta não localizou nada. Inclusive, os feitiços de alteração parcial de memória estão funcionando muito bem.
O “Feitiço de Alteração Parcial de Memória” fora criado pelo velho mago para “plantar” provas testemunhais da existência de sua “família” na Terra sem precisar alterar completamente a memória das pessoas. Para Lucca, a técnica era brilhante: inseria-se uma informação adormecida na mente do alvo, que só despertava quando certas palavras‑chave eram mencionadas. No cotidiano, ninguém lembrava nada sobre a “Família Magnison”, a família inventada pelo mago; porém, ao ser questionado, o alvo imediatamente recordava e conseguia fornecer respostas consistentes e detalhes precisos sobre aquilo que lhe era perguntado. Isso evitava sobrecarregar a memória com dados falsos misturados aos verdadeiros. E, conforme essas pessoas falavam sobre a família Magnison quando eram indagadas, a informação se espalhava pelos círculos sociais e familiares, propagando o conhecimento sem que fosse necessário enfeitiçar as gerações seguintes.
– Eu só acho bem curioso que as suas supostas colegas de escola se lembrem de ti como uma aluna quieta e pouco comunicativa, o que não tem nada a ver contigo — provocou Lucca, com um sorriso.
– Você queria o quê, amor? Ficaria estranho eu ter uma “melhor amiga” na escola e essa simplesmente não ter mais contato comigo e não mencionar a minha existência a não ser quando perguntada, né?
– Eu sei, eu sei, só tô te provocando. Mas será que não tem chance de falha mesmo? E se uma pessoa que tiver sensibilidade à magia tiver acesso a esses documentos? Será que ela não vai perceber algo de errado? Eu sei que são raras pessoas assim na Terra, mas elas existem.
– Eu fiz essa mesma pergunta para o Eukhadi.
– E?
– Ele disse que, numa eventual chance disso acontecer, a pessoa em questão vai ficar com uma sensação de desconforto ao ver os documentos de papel, pode achar que tem algo de errado ao escutar eventuais entrevistas de testemunhas enfeitiçadas, mas não vai conseguir provar nada. E o que se precisa é de prova, não é mesmo? Não de um palpite vago.
– Visto por esse lado, pode ser. Mas será que o tal executivo que exigiu a reunião não pode ser uma dessas pessoas?
– Talvez, mas o Eukhadi já preparou um belo dossiê sobre ele. Digamos que dá para ter certeza de que ele não convocou essa reunião por estar genuinamente preocupado com a holding e com o Fundo. Eu tenho uma cópia do documento, se quiseres ler.
– Por favor! Quero chegar na reunião bem-preparado e tava precisando de algo para me ocupar no voo. Aliás, não era melhor a gente simplesmente se teleportar para lá?
– Amor, a gente já teve essa conversa. Pode parecer loucura, mas eu gosto de fazer coisas comuns aqui na Terra, e viajar de avião é uma delas. Sem falar que, supondo que tenha alguém de olho na gente, não é melhor chegarmos a Nova York como pessoas normais chegariam?
– De fato, você tem razão. Mas o nosso bravo mago vai se teleportar. Afinal, ele tem medo de avião, veja se pode?
– É estranho mesmo, mas o Eukhadi não é o alvo da possível investigação, eu sim.
– Ah, outra coisa: nós temos que nos policiar para chamá-lo de “Eugene” quando estivermos lá… “Eugene” … Definitivamente ele não tem cara de Eugene, hahahaha.
– Concordo contigo, mas, segundo o velho mago, ele quis um nome que soasse parecido com Eukhadi…
– E falhou totalmente…
Ardriel apenas riu do comentário do marido.
Dois dias depois, o casal chegava àquela que é considerada por muitos a verdadeira capital do mundo: Nova York.
O casal havia programado alguns programas culturais na cidade; inclusive, tinham comprado ingressos para um dos famosos musicais em cartaz na Broadway. Mas, já no primeiro dia, eles encarariam o verdadeiro motivo daquela viagem: a reunião com os executivos que geriam o Fundo e os demais investimentos da holding que o velho mago tinha deixado para Ardriel.
Como combinado, Eukhadi encontrou com eles no hotel onde estavam hospedados, e os três foram juntos para o local da reunião: um edifício de escritórios em Manhattan, no coração da cidade.
Eles se identificaram na portaria e foram conduzidos até um elevador que os levou a um dos andares mais altos do edifício.
Lá, foram recepcionados por uma secretária que imediatamente os encaminhou à sala de reuniões onde eram aguardados.
A sala era impressionante, dotada de uma grande parede de vidro através da qual se conseguiam ver dois grandes marcos arquitetônicos da cidade: o Empire State Building e o One World Trade Center.
Aguardando por eles, sentados junto à grande mesa de reuniões, estavam cinco executivos: três homens e duas mulheres. Dois homens e duas mulheres ocupavam um dos lados da mesa, e apenas um estava do outro lado, junto às cadeiras destinadas aos recém-chegados — justamente o executivo que convocara aquela reunião.
Donald J. Nixon era um homem gordo, por volta dos cinquenta anos, atarracado, cujo pescoço praticamente desaparecia, escondido pela papada e pela gravata roxa que trazia. Seu cabelo era ralo no topo da cabeça, com duas grandes entradas, e artificialmente pintado de loiro numa tentativa inútil de parecer mais novo. Tinha bochechas relativamente flácidas e um olhar astuto no rosto.

Para decepção dele, Eukhadi e Lucca sentaram-se entre ele e Ardriel, bloqueando justamente o acesso do executivo à princesa.
Antes que a reunião começasse propriamente dita, a princesa levantou, fez um gesto pedindo a palavra e, diante da aprovação de todos, tomou a palavra:
– Para aqueles que não me conhecem, sou Ardriel Fornorimar Bianchi. Quando solteira, eu atendia pelo nome de Ardriel Magnison Fornorimar e sou a única proprietária da holding da família Magnuson no momento. Estes comigo são Eugene Objan — que alguns de vocês já conhecem e que trabalhava como consultor econômico do meu falecido tio, sendo hoje o meu consultor — e o meu marido, Lucca Bianchi. Antes que questionem a presença do meu marido nesta reunião, gostaria de informá-los que nós somos casados em comunhão de bens; ou seja, tudo que é meu é dele, inclusive a holding. Assim, ele está aqui como parte interessada no processo. Feitas as devidas introduções, creio que podemos começar, não é mesmo?
A reunião fluiu de maneira tranquila e, em um intervalo de mais ou menos duas horas, aparentemente todas as dúvidas dos executivos haviam sido sanadas.
Ardriel, Lucca e Eukhadi já estavam se preparando para partir quando foram abordados por Nixon.
– Senhora, se me permites, eu gostaria de falar contigo a sós.
– Ok. Eu também tinha um assunto para conversar contigo, senhor Nixon, mas meus acompanhantes estarão presentes na conversa — ou esta não ocorrerá.
– Se essa é a vossa condição, ok. Eu preferia a sós, mas não vou me opor.
Os demais executivos estranharam a situação, mas foram convencidos por Eukhadi a se retirarem.
Assim que ficaram a sós, o rotundo executivo tirou um contrato da pasta e o entregou a Ardriel. Ela o leu rapidamente, junto com Lucca e Eukhadi.
– Esse contrato prevê que eu transfira metade dos meus bens para o senhor, certo, senhor Nixon?
– Perfeitamente.
– De graça, sem nenhum custo, certo?
– Acho que está bem claro nos documentos.
– E por que minha esposa faria isso? — retrucou Lucca, que se mantivera calado a reunião toda.
– Pelo jeito o latino de terceiro mundo fala o meu idioma.
Lucca ia responder, mas foi contido pela esposa, que apertou sua mão como se dissesse: “deixa que eu cuido disso”.
– Vamos deixar as provocações baratas de lado. Me dê um motivo, só um, para eu aceitar essa insanidade que estás propondo.
– Adoro quando as pessoas são diretas: ou a senhora aceita os meus termos ou revelarei o seu segredo.
– Meu segredo? Que segredo?
– Que a senhora é um dos tais elfos de outro mundo que aparecem em seus livros. Sim, eu li por alto os seus livros quando estava estudando e investigando a senhora.
– Ah, o senhor me investigou? Ótimo. Assim me sinto menos culpada de ter feito o mesmo.
– …
– Ficastes sem palavras? Por favor, não fique. Você fez uma ameaça — e, como se costuma dizer na família do meu marido, quero vê-lo cumprir o que ameaçou. Não é bom deixar uma grávida curiosa, não é mesmo? Revele-nos as tuas tais provas. Sim, para tentar me chantagear, deves ter provas, não?
– Bem… ainda não. Aparentemente, tudo que os meus detetives levantaram está correto, mas eu leio tudo e fica uma sensação estranha…
– Ah, você tem uma intuição de que algo está errado, é isso?
– Sim, intuição, essa é a palavra. E tenho certeza de que uma pessoa reclusa como você não vai querer atenção da mídia, não é mesmo?
– Sinceramente? Vá em frente. Dê o seu show, revele ao mundo a sua intuição. Não estou nem aí…
– Hein?
– Você não entendeu, sapo gordo? — disse Lucca, se metendo na conversa. — Então deixa eu ser mais claro, porque pelo jeito a tintura de cabelo comeu o seu cérebro: foda-se a sua sensação estranha, ou como queira chamá-la. Vá lá, chame a imprensa, dê o seu show. Vamos ver em quem eles vão acreditar: em nós ou nos delírios de um executivo corrupto.
Ao terminar a frase, Lucca jogou sobre a mesa uma cópia, em inglês, do dossiê feito sobre Nixon.
O executivo pegou o dossiê e começou a folheá‑lo. Gotas grossas de suor escorriam de sua testa, e seu rosto começou a ficar vermelho.
– Sabe, senhor Nixon, em uma coisa você está certo: de fato eu não aprecio muito escândalos públicos. Então deixa eu fazer uma contraproposta: o senhor vai assinar a carta com o seu pedido de demissão, que o Eugene vai lhe entregar, e eu deixo você ficar com o dinheiro que desviou nos últimos anos. Como se diz lá no Brasil: é pegar ou largar.
– Mas… bem… podemos conversar…
– Não tem conversa — falou Lucca, que havia se levantado e parado atrás do executivo, apoiando a mão com força no ombro dele enquanto liberava sua aura famosa por provocar medo nos adversários — é isso ou nada. Até porque, supondo que os seus delírios sejam verdadeiros e minha esposa seja uma entidade mística de outra dimensão, o que nos impediria de fazê‑lo magicamente desaparecer?
O corrupto engravatado engoliu a seco, pegou uma caneta, assinou a carta entregue por Eukhadi, recolheu sua pasta e saiu o mais rápido possível da sala, deixando uma mancha molhada na cadeira — revelando que sua bexiga não havia resistido à pressão.
Resolvida a questão que os levara até lá, o casal aproveitou o resto da viagem para visitar a cidade de Nova York e suas inúmeras atrações turísticas.
E, depois dessa reunião, eles nunca tiveram mais problemas com a gestão dos negócios da holding e do Fundo.
