Elenvar

Uma ruína antiga na região norte da Cordilheira Central do continente central de Noritvy. Três primas elfas exploram o local.

Uma delas tem o cabelo castanho dourado, veste uma calça cinzenta, botas, uma blusa branca e um peitoral metálico por cima desta. Carrega nas costas uma grande mochila e duas espadas na cintura.

As outras duas são loiras quase idênticas. Uma usa o cabelo preso num rabo de cavalo, usa uma roupa em tons de castanho e verde claro, com um colete de couro por cima da blusa, trazendo duas adagas na cintura e uma mochila nas costas. A outra usa roupas cinzentas, à exceção de uma blusa violeta, com um colete de tecido cinza reforçado por cima da blusa. Carrega também uma mochila e um pequeno livro preso no colete.

– Alguém me explica de novo: por que estamos aqui?

– Você gosta de reclamar de tudo, hein, Rosa? Como diria o meu pai, às vezes você parece uma velha precoce – retrucou Galawel.

– É, irmã, não há motivo para estares a reclamar dessa maneira.

– Claro, não há motivo algum, eu AMO me enfiar em ruínas mofadas e empoeiradas.

– Ok, ok, Rosa, captei a sua mensagem, mas você tem que entender que é uma missão importante e eu chamei as pessoas em que eu mais confiava para estar ao meu lado.

– Prima, se você acha que vai me comprar com essa bajulação barata, estás enganada – riu Rosa. – Tu vais me comprar umas duas caixas daquele chocolate de que eu gosto como compensação.

– Até três. Podemos voltar à missão?

– Sim, só me relembra, por favor, ela; devo reconhecer que não estava muito atenta quando o tio explicou.

– Por que isso não me espanta? – riu Jasmin. – Recentemente acharam um novo corredor nessas ruínas e o nosso tio acha que pode haver ainda mais corredores por aqui. E, considerando que aqui era um antigo centro de pesquisa mágica da época dos falsos deuses, nosso tio teme que possam haver materiais potencialmente perigosos se caírem nas mãos de pessoas erradas.

– Entendi. Mas por que a gente tá tendo que trabalhar com aquele nobre lá de Erdan? Ele não seria uma dessas potenciais “pessoas erradas”?

– Lá na Terra tem um ditado que diz “mantenha os amigos próximos e os inimigos mais próximos ainda”. Então meu pai achou melhor a gente se disfarçar e assumir o contrato com o Lorde Zigsmund, que, supostamente, é um patrono das artes e da arqueologia. E até agora está dando tudo certo.

– Ou quase, né, prima? Afinal, logo tu, a madame certinha, quase detonou o nosso disfarce – provocou Rosa.

– Você quer o quê, prima? O sobrenome dele é Caralos, minha quinta série quase não resistiu.

– A parte da quinta série você já nos explicou no passado, prima, mas ainda não entendi por que você estava segurando o riso – comentou Jasmin.

– Jas, irmãzinha, tu estás a pensar em Vale. Pense em português. Coloque um H após o L do nome dele e veja como fica em português – explicou Rosa.

A elfa parou por alguns instantes, pensando no que a irmã havia dito e, depois de um breve momento, ela começou a rir, e tão alta era a sua risada que esta começou a ecoar nas ruínas. As jovens continuaram a andar pelas ruínas, seguindo a rota que levava ao novo corredor. Elas adentraram este e, ao chegar na sala supostamente sem saída que havia no fim dele, se depararam com uma cena um tanto curiosa: um elfo de cabelos prateados com reflexos azulados, usando um manto cinza‑azulado escuro com detalhes dourados e com uma capa verde, encontrava‑se pendurado no teto, preso pelo pé numa armadilha antiga, enquanto uma grande mochila e um bastão com uma brilhante pedra azul estavam caídos no chão perto dele.

Mas o mais curioso é que o elfo não estava tentando se soltar de maneira desesperada como qualquer um no seu lugar; pelo contrário, parecia aproveitar a sua posição “inusitada” para estudar marcas que havia no chão.

– Alguém conhece? – perguntou Rosa para a irmã e para a prima.

– Não.

– Nem eu.

– Ei, tá precisando de ajuda? – indagou a elfa para o estranho.

Curiosamente, o elfo ignorou Rosa, continuando a resmungar enquanto analisava algumas inscrições no chão. A elfa, pouco acostumada a ser ignorada pelos homens, visivelmente irritada e sem esperar qualquer outra resposta, cortou a corda que o prendia de cabeça para baixo, fazendo‑o desabar no chão.

Como se não tivesse acontecido nada, o rapaz continuou a analisar as inscrições no chão.

Ainda mais irritada, Rosa desferiu um potente chute na bunda dele.

– Hã? – reagiu o rapaz, surpreso com o chute.

– Quando alguém pergunta algo, é de bom tom responder, sabia? – retrucou Rosa.

– Você é um dos cronistas lá de Lirien, não é mesmo? – perguntou Galawel para o rapaz, enquanto analisava o brasão gravado na mochila dele.

– Lirien? Não é aquela vila de elfos p@# no c& que pregam a supremacia élfica e tentam reter todos os conhecimentos para eles?

– Não, Rosa, estes são os elfos de Elandorath. Lirien é aberta a todos que buscam conhecimento. Lá é que fica a grande biblioteca que eu visitei com a mamãe mês passado.

– Exatamente. Eu desconheço o significado dessa expressão usada pela senhorita, mas, de fato, os supremacistas são os nossos primos lá do norte, que, de fato, têm uma atitude execrável – completou o rapaz, enquanto tirava um pequeno caderno e uma pena do seu bolso. – Agora, por favor, poderias me falar mais dessa expressão que usastes? A origem dela, o significado?

– Acredite, eu sei que vocês cronistas gostam de saber de tudo, mas isso é algo que você não precisa perder seu tempo – comentou Gala. – Agora, como devemos chamá‑lo?

– Ah, claro, como pude cometer tal descortesia com belas damas, não é mesmo? Eu sou Elenvar da Casa de Virelle, um dos Guardiões dos Ecos da Vila de Lirien.

– Eu achei que tinha conhecido todos os guardiões quando estive recentemente em Lirien – falou Jasmin.

– Vai ver que apenas não te lembras dele – retrucou Rosa.

– Eu me lembraria de um rosto bonitinho, quer dizer, jovem como o dele, irmã.

– Bonitinho? Sei… Ah, a bunda do bonitinho é bem durinha, viu…

Galawel soltou um pigarro bem alto para chamar a atenção das primas.

– Bom, agora que vocês pararam de deixar o rapaz sem graça, podemos ser objetivos? – falou Gala e, naquele momento, as primas sabiam que ela já tinha incorporado o modo capitã da guarda. – Bem, Elenvar, em primeiro lugar, queira desculpar a falta de noção das minhas primas, elas costumam ser mais educadas. E, em segundo lugar, peço desculpas por invocar o seu “ponto fraco”, mas eu vou fazer‑te uma pergunta e gostaria que você respondesse, não como Elenvar, mas como um Guardião do Eco, que não pode mentir quando tem o seu cargo invocado: você está aqui só para investigar as ruínas em nome da missão de vocês de guardar os conhecimentos do mundo ou tens alguma segunda intenção?

– Juro pela minha honra e cargo, senhorita, que estou aqui única e exclusivamente em nome da minha missão.

– Ótimo, meninas, ele não mentiu – falou Galawel para as primas. – Imagino que você deve estar confuso agora, mas juro que vou explicar tudo.

– Confesso que estou curioso.

– Pois bem, oficialmente estamos aqui investigando as ruínas a pedido de Lorde Zigsmund Caralos, um mecenas da arqueologia e das artes.

– Curioso, as senhoritas mencionaram meus parentes distantes de Elandorath como pessoas ruins, mas a informação que nós temos em Lirien é que Lorde Zigsmund é um parceiro constante de negócios deles.

– Por isso eu falei “oficialmente”. Nós, na verdade, estamos investigando as ruínas e as intenções de Lorde Zigsmund. Como meu pai costuma dizer, mantenha os amigos perto e os inimigos mais perto ainda.

– Bom ditado, de fato, senhorita. Agora, se me permites a audácia de fazer tal pergunta, como devo chamá‑las?

– Não há audácia nenhuma, nós perguntamos pelo seu nome, bem, é justo que a gente se identifique também. Eu sou Galawel Bianchi, capitã da Guarda Real de Arlon, e essas são minhas primas, Rosa e Jasmin Arin‑Bianchi.

– Vossos sobrenomes são conhecidos até na minha vila e devo ser sincero ao dizer que a fama da beleza das mulheres da vossa família não é infundada.

– Ok, apresentações feitas, elogios feitos, podemos seguir em frente? Não quero passar o resto da minha vida aqui dentro – resmungou Rosa.

O agora quarteto seguiu em frente pelas ruínas, quase não acionando armadilhas e, quando acionava, era, quase sempre, por culpa de Elenvar.

O grupo se encontrava seguindo por um corredor escuro e estreito, com tochas que misticamente se acendiam enquanto eles prosseguiam. Com cuidado e atenção, eles finalmente chegaram a uma câmara grande, em cujo fundo havia um grande livro e um grande escrito numa das paredes laterais.

Logo que eles entraram, uma grande porta de pedra bloqueou a entrada. Um grupo de pessoas inexperientes teria se desesperado, mas não era o caso.

– E aí, bonitinho, o que diz aí na parede? Alguma dica de saída?

– Não, só fala que aqueles que aqui entrarem estarão condenados à morte silenciosa que vem com o sono. Estranho, né?

Rosa olhou para a irmã e para a prima bocejando, e foi como se tudo fizesse sentido.

– Gala, arromba a porta. Não precisa destruir totalmente, mas abre um bom buraco nesta. Elenvar, você mapeou todos os andares, certo? Então, sei que vai contra o que pregas, mas eu preciso que localizes um ponto no teto dessa sala onde possamos abrir uma passagem que nos ligue ao lado externo destas ruínas. Jas, assim que ele apontar o local, manda brasa, taca o teu raio mais poderoso para cima e esburaca tudo.

– Eu gostaria de saber o que está acontecendo…

– Ô, bonitinho, só faz o que eu pedi.

– Entendi o teu raciocínio, prima.

– Então faz o que eu pedi, Gala.

Todos fizeram o que Rosa havia pedido. Diante dos dois buracos criados, a elfa invocou uma magia de vento que começou a fazer uma forte corrente de ar circular pelo local, puxando o ar do exterior com força e ejetando‑o pelo buraco que Gala havia criado na porta.

Rapidamente todos notaram que a sua respiração estava melhorando e a sensação de cansaço estava sumindo aos poucos.

– Envenenamento por CO – comentou Gala.

– Perfeitamente, prima. Provavelmente causado pela profundidade do local e pelas tochas queimando o pouco oxigênio daqui. Eu me lembro de ter estudado isso contigo, te ajudando a te preparar para as provas da faculdade.

– Eu não sei o que é mais surpreendente: a Rosa lembrar de alguma das “matérias chatas da Gala”, como ela mesma costuma chamar, ou de não termos nos atinado de nos teleportar para fora daqui em vez de sair quebrando tudo – comentou Jasmin.

– Jas, vá à merda.

– Desculpa eu interromper as senhoritas, mas eu não entendi nada do que falaram. Envenenamento por CO? O que ser isso? Algum veneno raro?

– Não queima seus neurônios tentando entender isso. Depois a Jas te explica, ela é melhor professora do que eu.

– Neurônios?

– Ela te explica isso também. Agora, se me deres licença, devo checar se esse livro é o que possivelmente procuramos e que nos vai permitir sair daqui de uma vez por todas.

Rosa se aproximou do local, checando possíveis armadilhas com cuidado e esmero. Desarmou algumas que ali estavam e conseguiu finalmente pegar o livro. A elfa folheou este rapidamente, sorriu e anunciou que, de fato, era o tal material perigoso cuja existência o seu tio especulara.

Mais tarde, os agora quatro companheiros de viagem jantavam e conversavam alegremente na hospedaria onde as três jovens estavam hospedadas.

– Eu ainda estou tentando entender o que é esse tal de CO que mencionaram lá nas ruínas – disse Elenvar.

– Eu sei que você deve estar morrendo de curiosidade, bonitinho, mas isso é algo que demanda toda uma aula de ciências e introdução a conceitos bioquímicos não muito conhecidos por aqui. Mas faz o seguinte: pede para a Jas te dar uma aula particular que ela te ensina com prazer – respondeu Rosa.

– É, claro, opa, peraí, Rosa…

– Confessa, prima, você achou ele bonitinho desde o início e vocês são dois nerds, dariam certo juntos – provocou Gala, falando em português.

– Você me chama de nerd, mas não fica muito atrás – retrucou Jasmin, também em português.

– Eu não sou nerd, sou geek.

– E tem diferença?

– Você não saber já prova que tem diferença.

Elenvar, literalmente boiando diante de uma conversa numa língua que não entendia, virou‑se para Rosa e perguntou:

– Do que elas estão falando?

– Papo de mulher, Elenvar, papo de mulher – respondeu Rosa enquanto se servia de mais vinho.

A noite seguiu tranquila e agradável, com Elenvar entupindo as três moças de perguntas e as jovens se divertindo com a curiosidade do rapaz.

Quando já estavam prestes a pedir a conta, três sombras pararam atrás de Galawel, quebrando totalmente o clima jovial do jantar. O trio era formado por um elfo, claramente de sangue impuro, pois possuía um bigode fino bem aparado, cabelos negros cacheados que iam até os ombros, baixo para os padrões élficos e com uma protuberante barriga, trajando roupas finas e refinadas de seda, predominantemente azuis, com bordados e babados; e dois capangas corcundas, feios e com roupas sujas, cada um carregando um porrete do tamanho de um taco de beisebol.

– Boa noite, Lorde Pintos, quer dizer, Caralos – falou Gala, apreciando calmamente sua cerveja sem nem ao menos se virar para ver quem estava atrás dela. – Ao que devemos o prazer da vossa companhia em tão humilde estalagem?

– Boa noite, capitã. Sim, eu sei quem tu és, como diriam os mais jovens, eu fiz o meu dever de casa. E eu acredito que tu tenhas algo que me pertence.

– Eu?

– Não te faças de desentendida, minha jovem. Falo do livro que pegastes nas ruínas.

– Ah, aquele livro. Não me lembro de ter o vosso nome escrito nele.

– Sugiro que não abuses da minha paciência, senhorita.

– Rosa, a gente tá com algum livro que pertença ao Lorde Passarinhos?

– Eu não. Jasmin, tem algum livro na tua bolsa?

– Livro? Peraí, acho que tem sim… – nisso Jasmin abriu a bolsa, que continha alguns equipamentos de exploração, mas nenhum livro. – Opa, eu jurava que ele estava aqui, mas pelo jeito o livro sumiu, desapareceu, escafedeu‑se.

– Prima, acho que a beleza do Elenvar anda lhe distraindo. Eu me lembro que você disse que ia teleportá‑lo para um lugar seguro.

– Ah, é mesmo, que cabeça a minha.

– Senhoritas, eu não sou famoso por minha paciência – reclamou Lorde Caralos. – Queiram parar com esse joguinho.

– Ninguém aqui está brincando, Lorde Passaralhos, minha prima falou a verdade – respondeu Rosa, enquanto bebia com calma o seu vinho. – A gente realmente mandou ele para um lugar seguro.

– Meu nome é Lorde Caralos, senhorita! E que lugar seria este?

– A casa dos nossos pais, ué. É lá em Swordia, fica a uns três ou quatro dias de viagem se o senhor partir logo. É só perguntar pela casa do ferreiro Siegfried que vão lhe indicar o caminho.

– E se o senhor chegar lá e pedir com educação e respeito, provavelmente vão lhe negar o livro, mas ao menos vais ter a chance de provar os biscoitos e o chá da minha mãe, e eu garanto que eles valem a viagem – completou Jasmin.

– Pelo jeito me tomam por tolo, não é mesmo? Eu sei bem quem é vosso pai e quem é vossa mãe, a arquimaga, e sei que não são pessoas que devem ser incomodadas.

– Eu não diria que o tomamos por tolo, Lorde Caralos, nós temos certeza da vossa tolice – falou Gala, usando um tom sério. – Agora queira ir embora, pois está estragando o nosso jantar.

– O que pensas de mim, capitã, pouco me importa. Mas creio que tereis que abreviar o vosso jantar e me acompanhar até o meu sócio. Depois de conversar com ele, uma de vós irá buscar o livro enquanto as outras ficarão de reféns. Recomendo atender ao meu pedido de maneira educada ou terei que recorrer à força.

Rosa cuspiu o vinho que bebia e começou a rir.

– O senhor quer nos dar ordens e nos obrigar a ir aonde queres? E como pretende nos obrigar? Usando esses dois refugos de acidente com ácido para nos conduzir à força? – debochou Rosa. – Minha prima sozinha derrota os dois sem suar.

– Eu bem sei da fama da sua prima. Mas também sei do código de ética dela. Ela possivelmente é capaz de derrotar os meus rapazes aqui presentes, mas ela seria capaz de impedir todo o meu pelotão de capangas que estão a cercar o prédio de ferir os inocentes aqui presentes? E então? A nobre capitã de Arlon permitirá que inocentes sejam feridos?

Galawel acabou sua cerveja, colocou a caneca na mesa e disse:

– Ok, iremos contigo, mas se ousares ferir um inocente que for, não haverá buraco no mundo onde possas te abrigar da minha fúria. Fui clara?

– Como água pura de um ribeirão, senhorita.

– Ótimo. Elenvar, você não precisa ir conosco. Essa confusão não lhe diz respeito.

– Faço questão de ir. Afinal, que cavalheiro abandonaria três damas em uma situação de perigo? Apesar de eu achar que não são exatamente as senhoritas que correm perigo.

Os quatro seguiram Lorde Caralos e seus capangas até uma mansão nos arredores da cidade onde estavam. No caminho para lá, Rosa entregou aos três pequenas esferas negras e sussurrou para eles que deveriam engoli‑las. Elenvar fez menção de perguntar o que seria aquela esfera, mas se calou diante do gesto de Galawel pedindo silêncio. Além disso, por telepatia, a elfa pediu para as primas não caírem na provocação dos inimigos, mantendo uma atitude digna e não provocá‑los de maneira desnecessária.

Antes de entrarem na casa, os homens de Lorde Caralos algemaram os quatro. Rosa e Jasmin fizeram menção de resistir, mas desistiram depois que Gala sinalizou para aceitarem as algemas. Depois disso, foram conduzidos para dentro da mansão e, após seguir um longo corredor, entraram numa sala ampla.

No fundo desta, em posição oposta à porta, havia uma lareira e, sentado numa poltrona confortável junto dela, segurando um copo de brandy na mão, um elfo de cabelos brancos e ar arrogante. Parado atrás dele havia um homem alto, de feições quadradas e pele acinzentada, que mais parecia uma estátua de concreto. Esse homem portava um machado imenso.

– Senhoritas, rapaz, queiram dar boa noite ao meu sócio, Lorde Maerdras Raboud, membro do conselho governante de Elandorath.

– “Merdas Enrabou”? Eu ouvi bem? – provocou Rosa.

– Eu ouvi o mesmo – retrucou Jasmin.

As duas só pararam as provocações diante de um pigarro de Galawel.

– Não esperaria comportamento diferente de duas filhas de um “sangue‑sujo barbudo” – falou com desdém Lorde Raboud. – Enfim, creio que meu sócio já tenha adiantado o assunto, não é mesmo? Ireis colaborar direito ou arcarão com as consequências. Inclusive vós, primo, não aches que nosso parentesco lhe proteja.

– Primo?! – falaram Gala, Rosa e Jasmin ao mesmo tempo.

– Sim, primo – explicou Elenvar. – A mãe dele é irmã da minha mãe. Ela foi expulsa da nossa cidade por defender ideias supremacistas e acabou achando abrigo lá em Elandorath. Só não esperava encontrar‑vos aqui, primo.

– Apresentações feitas, vamos aos negócios. E antes que tentem qualquer gracinha, já adianto que esta sala é encantada para bloquear qualquer poder mágico de vós – falou Lorde Caralos, cortando Elenvar.

– Lorde Caralos, pelo jeito é mais tolo do que eu pensava – disse, de maneira ácida, Galawel. – Considerando que o ambicioso plano dos anciões de Elandorath se torne realidade e eles conquistem o continente central, o senhor será tratado como um cidadão de segunda linha, isso se mantiver algum direito civil.

– Capitã, capitã, eu estou sendo bem pago. O suficiente para recomeçar a minha vida em outro lado do planeta, se assim for necessário.

– Como se fossem deixar partir‑vos com a vossa fortuna, mas deixemos isso de lado. Como você mesmo disse, vamos aos negócios. Lorde Raboud, sei que és um apostador e que fizeste muita grana usando teu capanga aí do teu lado em rinhas de gladiadores.

– Pelo jeito és de fato bem-informada, senhorita.

– Eu sou a capitã da divisão de exploração da Guarda Real de Arlon. É a minha obrigação ser bem-informada. Principalmente sobre as possíveis ameaças que rondam o meu reino.

– Gosto de ver que não são tolos em nos subestimar.

– Eu diria que minha prima está é superestimando vossos planos. Nunca que vossa cidadezinha vai conseguir chegar perto de conquistar Arlon, quanto mais o continente todo.

– Rogo que a senhorita se mantenha calada, suas palavras de sangue‑sujo são uma ofensa aos meus ouvidos.

– E eu rogo que vossa senhoria se dedique ao exaustivo consumo oral de uma plantação de plantas sacarínicas de caráter fálico.

– Rosa! – reclamou Gala por telepatia.

– Que foi, prima? Não tinhas dito para mantermos um nível digno? Bem, eu dignamente o mandei chupar um canavial de rol@ – retrucou a elfa por telepatia também.

– Lorde Raboud, peço que deixe de lado as provocações de minha prima e me permita formular minha proposta.

– Tens educação, apesar de vosso sangue impuro. E, em deferência a isso, escutarei a vossa proposta.

– Na verdade é uma aposta, um jogo: eu contra o vosso capanga, desarmados. Se eu ganhar, iremos embora. Se eu perder, o livro é vosso. E mais: eu me tornarei vossa escrava. Que tal? Eu, uma garotinha sangue‑sujo, filha de um reles meio‑elfo, contra o vosso gigante.

– Hahaha. Não me subestimes, senhorita. Sei que não és uma “mera garotinha” e vosso pai está longe de ser um mero meio‑elfo. E sei também que vossas proezas estão ligadas à vossa força mágica, que não vai funcionar aqui. Então, por que não? Será útil tê‑la como escrava.

Lord Raboud fez um gesto, e um dos seus servos conduziu Galawel até o centro da sala. O gigante que servia a ele parou diante dela. O mesmo servo que a conduzira até o local fez menção de soltar as algemas, mas a elfa as arrebentou com relativa facilidade.

Por mais que não quisesse reconhecer, o vilão olhou para aquilo com certo temor, mas o seu campeão não se abalou e partiu para cima de Galawel, pronto para desferir um soco.

A jovem desviou dele com uma finta de corpo, agarrou o braço estendido e o jogou no chão com um golpe de judô, com a mesma facilidade com que se arremessa uma bolinha de papel.

O guerreiro caiu de costas no chão, abrindo uma cratera com o formato do seu grande corpo.

– A vossa prima acabou de usar um troll da montanha para abrir um buraco no chão – sussurrou Elenvar para Jasmin, sem acreditar no que vira.

– Aham.

– O quão forte ela é?

– O suficiente para quebrar uma barra de ferro com as mãos…

Ao mesmo tempo, Lorde Raboud, saindo do seu estupor inicial, arremessou sua taça no chão e gritou:

– Trapaceira! Não tens como vencer o meu troll sem a vossa força mágica!

– Ué, estás dizendo que a vossa fabulosa barreira mágica falhou? Lorde Raboud, minha força nunca foi mágica. Ela é uma herança da família do meu pai, uma família “inferior”, “corrompida”, “sangue‑sujo”, como racistas como vós gostam de chamar.

– Não importa! Rapazes…

Antes que conseguisse dar mais alguma ordem, o arrogante vilão sentiu suas pernas fraquejarem e sua voz começar a falhar.

– Trapaceira… – ainda falou ele com esforço…

– Bem, “Lorde Cocô”, desta vez a culpa é minha – disse, sorrindo, Rosa, enquanto mostrava que havia aberto as suas algemas sem esforço, mesmo estando com as mãos presas para trás. – Sabe, enquanto estavas ocupado com o vosso discurso de vilão, eu soltei as minhas mãos e quebrei uma cápsula de veneno que tinha num dos meus bolsos. E, claro, eu dei para os meus companheiros um antídoto antes mesmo de chegarmos aqui. As pessoas me perguntam por que eu uso roupas com decote, que valorizam o meu busto. Ora, o que é belo deve ser mostrado, é claro, mas eu uso também por causa de porcos machistas como vós. Lixos como a vossa pessoa nunca esperam que “lorinhas bonitinhas” como eu sejam capazes de fazer nada; ficam olhando para os meus peitos e não prestam atenção nas minhas mãos que, acredite, são muito mais perigosas que os meus seios. Ah, só para constar: eu também acionei um equipamento mágico desenvolvido pelo meu pai e que serve para alertar quando estamos em perigo. E como a magia do equipamento provém da minha mãe, duvido que a vossa barreira tenha conseguido bloquear o sinal deste.

– Na verdade, irmã, a barreira dele não bloqueou nem a minha magia – comentou Jasmin, enquanto se soltava das algemas usando seus poderes mágicos. – Eu só “deixei rolar”, como diriam os nossos primos, irmãos caçulas da Gala, para ver até onde essa história iria.

– Jas, já que a tua magia tá a pleno vapor, tem como usar aquele truque dos cipós para amarrar eles?

– Claro, prima. Mas só quem tá aqui na sala ou todo o bando que tá zanzando pela mansão?

– O bando todo, se não for pedir muito.

– Não é não.

– Ótimo. Rosa, assim que a Jas amarrar eles, eu preciso conversar com o “Lorde Vendido” e o “Lorde N@zista”. Tem algum antídoto sobrando?

– Tem. Acho desperdício de remédio, mas a “capitã” aqui é você, prima.

– Maravilha. Ah, e alguma de vocês poderia soltar o coitado do Elenvar?

– Ops, eu tinha esquecido do bonitinho – riu Rosa.

Jasmin pegou o pequeno livro que levava preso junto das suas roupas, folheou este até achar a página certa. Leu esta rapidamente, fechou o livro, colocou‑o novamente onde estava preso anteriormente e apontou as mãos para o chão enquanto murmurava palavras de um idioma há muito esquecido, e uma aura lilás a envolvia.

Ramos de trepadeiras, da espessura de um cabo de vassoura, começaram a surgir do chão e a envolver os inimigos ali caídos, imobilizando‑os totalmente. O troll que havia sido nocauteado por Gala e que continuava caído no chão foi amarrado neste, com o seu corpo ficando totalmente coberto, só com o rosto aparecendo.

Sem nenhum esforço, Galawel arrastou Lorde Caralos e Lorde Raboud até o centro do salão. Rosa enfiou uma cápsula de antídoto goela abaixo de cada um deles e depois invocou uma grande bola de água acima da cabeça deles. Com um simples gesto da elfa, a bola caiu, encharcando‑os e os acordando do transe do veneno.

– Criaturas vis e bárbaras! Eu sou um membro do conselho governante de Elandorath. Eu tenho imunidade diplomática e exijo ser tratado de acordo com esta! – protestou Lorde Raboud.

– Você tinha, de fato, mas não tem mais. Eu acabei de revogá‑la – retrucou Galawel.

– Tu não tens esse poder!

– Eu tenho e vou utilizá‑lo. Deixa eu explicar uma coisinha para o senhor: estamos num reino, algo muito maior do que aquela cidade nojenta de onde vens. Em Arlon, normalmente, o único que pode cassar a imunidade de alguém é o rei. Mas o rei não pode estar em todos os cantos, pode? Então, na ausência do rei, o nobre responsável pela região — seja um duque, um conde ou mesmo um visconde — pode falar em nome do rei e cassar a imunidade de alguém, numa decisão que somente o rei pode reverter.

– Então eu exijo falar com o nobre local!

– Se o senhor tivesse me deixado terminar a explicação, veria que isso não é possível – sorriu, de maneira debochada, Galawel. – Esta mansão se encontra em “Terras Reais”, um termo que usamos para terras que não possuem um nobre responsável e respondem diretamente ao rei. Na ausência do rei, em situações como essa, quem pode falar em primeiro lugar é a princesa herdeira; na ausência desta, o general responsável pela divisão de exploração da guarda real; e, na ausência deste, a capitã da divisão de exploração da Guarda Real — no caso, eu mesma. Então sim, eu tenho esse poder. E antes que o senhor tente espernear dizendo que exige falar com o general ou com a princesa herdeira, gostaria de lembrar‑lhe que estes são, respectivamente, o meu pai e a minha mãe, e eu duvido que eles discordem de mim nessa decisão.

Maerdras suspirou e se calou, ficando olhando para o chão com um ar desolado. O elfo finalmente havia entendido que se encontrava numa situação sem saída.

– E você, Lorde Caralos, não vais dizer nada?

– Não, senhora…

– Que bom. Mas você não é problema meu ou de Arlon. Como és um nobre de Erdan, despacharei você para lá e você terá que lidar com o meu avô.

– Ah, bem, capitã, quer dizer, princesa, alteza… tens certeza de que não posso ser julgado aqui mesmo, pelas leis de Arlon?

– Ora, tens medo da fúria do meu avô? Pensasse nisso antes de sair se aliando com lixos como o “Lorde Estrume” aí ao seu lado.

Não muito tempo depois, um barulho se fez ouvir vindo da entrada da casa. Era o pai de Galawel, Lukhz, que chegara ao local com alguns soldados de elite, através de uma magia de teleporte.

Ao ver que a situação estava toda sob controle, ele deu os parabéns às jovens, disse que assumiria a “limpeza” do local e falou para elas irem relaxar junto com o seu novo amigo.

As meninas, junto do seu novo amigo, voltaram à estalagem para terminar o jantar, enquanto os dois lordes, juntos dos seus capangas, foram levados para a cadeia real mais próxima.

Elenvar e Jasmin, no início, se tornaram bons amigos, estudando juntos, com ela ensinando coisas sobre ciência e o mundo moderno e ele ensinando sobre coisas antigas do mundo de Noritvy. Como Rosa e Galawel haviam previsto, a amizade rapidamente evoluiu para amor e, alguns anos depois do seu primeiro encontro, eles se casaram numa capela do castelo real de Arlon.

PS: eu gostei tanto da segunda e da terceira ilustrações que disponibilizei versões com maior resolução delas para ti, caro leitor. É só clicar nelas.

Retornar à pagina de Textos