Uma bela tarde em Arlon. O céu se encontrava limpo, sem nenhuma nuvem no céu, o sol iluminava a cidade e ao longo dessa as pessoas tentavam aproveitar ao máximo aquele belo dia.
Alana, então com 19 anos, e Francisco, ou Frank como era chamado pelos amigos, com 22 anos, caminhavam pelos corredores do palácio real. Eles haviam acabado de ficar noivos e, embora estivessem enrolados com vários assuntos pessoais, tinham sido convocados ao palácio pelo avô dela, Lucca, e esse era uma convocação que não podia ser ignorada.
O jovem casal entrou no escritório onde ele se encontrava, um dos inúmeros que havia no local. O meio elfo se encontrava sentado atrás de uma mesa que, por sua vez, estava ocupada com inúmeros livros e pergaminhos velhos.
Já se passara alguns anos desde que os dois o tinham conhecido, mas nada mudara nele: o mesmo cabelo castanho com discretos fios brancos nas têmporas, o mesmo olhar amistoso e o mesmo jeito de “gigante gentil” que não deixava as pessoas se intimidarem pelo tamanho dele.
– Vovô, você nos convocou e aqui estamos – disse a jovem ninfa com um sorriso.
– Minha neta, você sabe que eu não convoco ninguém, eu apenas pedi para vocês darem um pulinho aqui pois eu finalmente descobri aquilo que eu e o teu pai estávamos pesquisando.
– Não me diga que…
– Sim, nós descobrimos a ligação entre Antigon e as ninfas e porquê a sua mãe conseguiu abrir aquele quarto secreto lá na biblioteca de Vitória. Aliás, é uma pena que o teu pai tenha ficado enrolado com os assuntos da universidade lá na Terra. Mas antes disso, vocês aceitam um chá?
– Claro!
– Sim.
– Então, por favor, sentem-se.
O casal se acomodou num par de confortáveis poltronas que se encontravam em frente à mesa na qual Lucca estava trabalhando no momento em que entraram na sala.
O meio elfo foi até uma mesinha de madeira no canto da sala, pegou um par de xícaras, pôs estas na mesa, na frente dos dois jovens e serviu para eles um perfumado chá de capim limão.
– Bom, por onde começamos?
– Pelo começo, vovô?
– Hahahaah. Você aprendeu essa com o meu pai, eu sei.
– Não posso negar.
– Ok, deixando as bobagens de família de lado, de fato vamos começar pelo começo, ou seja, a sala secreta na Biblioteca de Vitória. O que dizia na inscrição da porta dela?
– Que só poderia abrir a porta aqueles compartilhassem o sangue das rainhas das ninfas – respondeu Frank enquanto levantava a mão.
– Perfeitamente, mas não estamos numa aula, não precisa levantar a mão.
– “Nerd” – brincou Alana enquanto dava um “soquinho” no ombro do noivo. – Mas aí é que está, vovô, pelo que me conste, a minha mãe não tem sangue de ninfa.
– E de fato não tem.
– Então como ela conseguiu abrir?
– O feitiço falhou? – completou Frank.
– Não, o feitiço não falhou. E nós estávamos o tempo todo abordando a questão pelo ponto errado. De fato, toda ninfa descende de uma outra ninfa mas também descende de um homem, certo?
– Sim, claro.
– Óbvio! Então quer dizer que a minha mãe descende de um homem que foi o pai de alguma rainha ninfa anterior à que criou a biblioteca!
– Bingo, minha neta e esse homem em específico simplesmente era o Rei Antigon, o último rei uno dos elfos. Por isso também que os descendentes de Antigon tem permissão de entrar na corte das ninfas.
– Agora faz todo sentido.
– Mas como o senhor descobriu isso? Está nos documentos?
– Já disse que senhor está no céu, Frank, mas sim, numa coleção de cartas e documentos escritos pela rainha que criou a biblioteca, que vinha a ser neta do Antigon, por cartas enviadas por este para a mãe dela e mesmo para ela. Mas nos deu algum trabalho entender estas.
– Por que, vovô?
– Porque estavam todas escritas num dialeto antigo da ninfas, que nem a sua tia, a regente das ninfas, conhece.
– E o senhor não tem aquele dom de entender todos os idiomas, vovô?
– A minha magia funciona com idiomas falados, minha neta, não com escritos. Mas, para a nossa sorte, achamos o que o seu pai chamou de uma “pedra de roseta em formato de carta”.
– Não entendi.
– A pedra de roseta é…
– Vô, eu sei o que é a pedra de roseta, ao menos a original, o meu pai fez questão de me mostrar ela no Museu quando estivemos em Londres. Só não entendi a comparação.
– Ah, sim. Nós achamos uma carta de acordos envolvendo as ninfas, a cidade de Vitória e um vilarejo élfico que existia no Vale central do continente escrito em élfico antigo, em vitoriano, que nada mais é do que inglês antigo e no dialeto antigo. Como eu conheço os dois primeiros idiomas e vi que o texto era o mesmo, não foi difícil para mim, com a ajuda do seu pai, conseguir desvendar o antigo idioma das ninfas.
– E com isso “fechar” o mistério da ligação entre o Antigon e as ninfas.
– Sim, minha neta, mas não foi só isso que descobrimos. Achamos também, além da coleção de cartas trocadas entre o Antigon, sua filha e depois a sua neta, um diário desta. E conseguimos até descobrir que Antigon acabou influenciando a cultura das ninfas bem mais do que pensávamos. Por exemplo, o que acontece quando uma ninfa tem um filho homem?
– Ela entrega para o pai criar – respondeu Alana.
– Ou, se não encontrar este, entrega em algum dos orfanatos mantidos por elas nas cidades próximas, com as informações necessárias para entregar a criança para o pai caso esse apareça – completou Frank.
– Certo. Mas, antes de Antigon, a situação não era tão legal assim. As ninfas simplesmente largavam a criança na porta de uma vila próxima qualquer ou largavam no mato.
– Credo!
– Que absurdo.
– Sim, muito absurdo, concordo. E Antigon também pensava assim. Se valendo da obsessão da Rainha Ninfa em conseguir a “sua semente”, ele impôs três condições: a primeira é que caso a criança que ela viesse a conceber fosse um homem, ela o entregaria diretamente para ele, a segunda é que as ninfas não mais abandonariam os filhos homens na estrada ou em uma vila qualquer e sim entregariam para os pais e a terceira é que caso não achassem o pai, deixariam em orfanatos criados por Antigon nas vilas próximas e ele se encarregaria de localizar o pai ou mesmo arranjar um novo lar para as crianças. Quando ele veio a falecer, a sua neta assumiu o manejo desses orfanatos com a ajuda de alguns nobres élficos e alguns nobres locais e assim tem sido há mais de 1000 anos.
– 1000 anos. Às vezes eu me perco nessa contagem de tempo aqui em Noritvy – comentou Frank.
– 1000 parece muita coisa mas se consideramos que San Marino, uma das micronações europeias tem mais de 1500 anos, 1000 nem é tanta coisa assim…
– Vô, deixando a sua paixão por micro países de lado, tem mais alguma legal que o senhor tenha lido nos documentos e cartas?
– Muita coisa legal, usando as suas palavras, minha neta. Olha isso aqui, é o começo da primeira carta escrita pelo Antigon para a filha, antes mesmo dela nascer:
“Minha querida filha, se estás lendo essa carta é porque vossa mãe cumpriu a palavra de entregar-lhe, como havia prometido. Coisa que não me espanta pois vossa mãe sempre se mostrou uma pessoa honrada e dada a cumprir com sua palavra.
Saiba que eu não a conheço, ainda, mas já lhe amo, como afinal não poderia deixar de ser, pois és minha filha, que eu ajudei a conceber de livre e espontânea vontade.”
– E ele continua a falar outras coisas na carta, como a necessidade da filha de sempre ouvir os conselhos dos mais velhos e de como ele sempre estaria disponível para aconselha-la se assim ela deseja-se. E, de fato, mais de uma vez, ela o procurou, as vezes para pedir conselhos, as vezes só para conversar mesmo. Há pelo menos uma centena de cartas trocadas entre eles.
– Nossa, que legal vô.
– E Antigon também se correspondeu com a neta, como eu já disse antes. Aliás, esta morria de ciúmes da Alaria, a sua tetra avó.
– Sério?
– Sim, mais de uma vez no diário ela fala como invejava a relação da Alaria com o Antigon, de como ela gostaria de ter tido um pai próximo dela como o Antigon era da Alaria e que, por mais que este fosse um avô carinhoso, ela preferia ter tido um pai carinhoso. Num trecho do diário, escrito já após o falecimento do Antigon, ela fala que por mais que este tivesse aconselhado ela a procurar Alaria sempre que precisasse de ajudas ou conselho, ela ainda se sentia um pouco desconfortável em procurar a sua “meio tia” como ela fala no diário. Mas, apesar de tudo, segundo ela mesmo escreveu no diário, ela acatou o conselho da Alaria de criar uma biblioteca secreta em Vitória, numa câmara que preservaria melhor os documentos do que as úmidas câmaras existentes no Bosque das Ninfas.
– Que bom que ela seguiu o conselho, né vô?
– Sim, sim. Do ponto de vista histórico e arqueológico, essa biblioteca secreta foi um achado e tanto. Eu já li muitos documentos vindos de lá, que não devem corresponder à nem 5% do total e, ainda assim, acreditem, eu poderia ficar falando horas sobre tudo o que descobri, se tivesse tempo, é claro. De qualquer maneira, eu e o teu pai pretendemos aos poucos, com a ajuda de pesquisadores do reino, classificar e organizar tudo. E recomendo que vocês, assim que tiverem tempo, leiam. É parte do passado de vocês dois, sim de vocês dois, pois tem vários documentos que citam e dizem respeito a Vitória e tudo que diz respeito a Vitória diz respeito à você, Francisco, uma vez que agora você é o regente.
– Acho que falo pelos dois, vô, quando digo que iremos sim estudar esses documentos.
– Exatamente – concordou Frank.
– Fico feliz em ouvir isso.
O jovem casal se despediu do velho paladino, que se encontrava enrolado em problemas burocráticos e que fizera uma breve pausa para recebê-los, e, aproveitando que já estavam lá, foram resolver situações pendentes que lhe diziam respeito no castelo de Arlon.
